Textos críticos sobre poesia

 O tempo cristalizado de Antonio Cicero

Antonio Cicero é poeta, ensaísta, letrista e filósofo. Escreve poesia desde criança, virou letrista quando sua irmã, a cantora Marina Lima, pegou um de seus poemas e musicou. Publicou os ensaios filosóficos: O mundo desde o fim, Francisco Alves, 1995, Finalidades sem fim, Companhia das Letras, 2005 que foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria Teoria / Crítica literária e Poesia e filosofia, Civilização Brasileira, 2012 e os livros de poesia Guardar, Record, 1996, vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, na categoria estreante. A cidade e os livros, Record, 2002, Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo), +2 Editora, 2010. Além de publicar um livro de entrevistas organizado por Arthur Nogueira, Antonio Cicero por Antonio Cicero, 2012 e lançar um CD de poemas com o mesmo título.
Em 2012 lança, seu terceiro livro de poesia Porventura. Poesia e filosofia se misturam na vida de Antonio Cicero, porém para aqueles que acham que elas podem ser misturar, em Poesia e Filosofia, cap. 5. A filosofia no poema, Antonio Cicero avisa que:

(…) o valor de uma obra de filosofia enquanto filosofia depende em grande parte da originalidade das teses filosóficas que ela afirma; o valor de uma obra de poesia enquanto poesia não depende da originalidade das teses filosóficas que ela afirma.

Cicero é um grande artífice das palavras, sua poesia é concisa, racional, tudo é justo, simetricamente perfeito, porém sem ser hermético e perder o teor comunicativo. Utiliza conscientemente, além do rigor gramatical, os recursos poéticos: métrica, rimas, sobretudo as internas ou a toantes, assonâncias, aliterações, tudo isso proporciona muita musicalidade em seus versos, - o poeta é um ótimo declamador-, o que traz certo tom coloquial, o vocabulário é aparentemente simples, – o mais desavisado pode até tropeçar em uma ou outra palavra dura, áspera, por vezes, nada poética –, explora, como poucos, a polissemia das palavras. Veja o poema Aparências:

Não sou mais tolo não mais me queixo:
enganassem-me mais desenganassem-me mais
mais rápidas mais vorazes mais arrebatadoras
mais volúveis mais voláteis
mais aparecessem para mim e desaparecessem
mais velassem mais desvelassem mais revelassem mais re-
velassem
mais

eu viveria tantas mortes
morreria tantas vidas
jamais me queixaria
jamais.

Vejam como a repetição do termo mais dá musicalidade ao verso, que é quebrada com os pares: enganassem-me/desenganassem-me, parecessem/desaparecessem, velassem/ desvelassem. A musicalidade não é só quebrada com o uso dessas palavras, porém o que mais dificulta a leitura do poema é que o fim da frase não coincide com quebra do verso, talvez se estes versos fossem escritos dessa maneira (mais aparecessem para mim e desaparecessem/ mais velassem mais desvelassem/ mais revelassem/ mais revelassem mais) sua leitura fosse mais fluída, porém o poema perderia a polissemia do verso velassem, após ser separado do prefixo re, final do verso anterior, o que repete o próprio verbo velar, início do verso anterior.
Em Porventura não há, aparentemente, nenhum arrojo estético, com exceção aos poemas Síntese e Fedra que estão em caixa alta os outros estão centralizados na página e, predominantemente, em apenas uma estrofe,
O advérbio porventura que dá título ao livro é sinônimo de acaso, possivelmente, quiçá e talvez, assim o plano hipotético inunda cada poema, trazendo como tema central do livro o tempo, ora o presente, de olho no cotidiano urbano As flores na cidade, Presente e Meio-fio:

Domingo à noite, ao cinema,
à comédia americana
do Roxy, em Copacabana: (..)

Mas, na Barão de Ipanema
com a Domingos Ferreira,
eis que fazemos besteira,
a um quarteirão do cinema:
é que, à procura de vaga,
não vemos que vem um carro
na transversal, e o esbarro
não é grande mas estraga
os planos. Resta esperar
ao meio-fio a perícia.
Mas a noite, com a malícia
e a fluidez de um jaguar,
nada espera. Da Avenida
Atlântica, a maresia,
cio noturno, alicia
para outras eras da vida.
ou no passado, por vezes, pessoal Palavras Aladas:
Os juramentos que nos juramos
Entrelaçados naquela cama
Seriam traídos se lembrados hoje
(...)

Esqueçamo-las
Pois dentre os atos da língua
Houve outros mais convincentes
E ardentes sobre os lençóis
(...)

ou coletivo Ícaro, último poema do livro:
Buscando as profundezas do céu
conheceu Ícaro as do mar
Adeus poeira olímpica
grãos da Líbia
barcos de Chipre
Adeus riquezas de Átalo
vinhos do Mássico
coroas de louro
flautas e liras
Adeus cabeça nas estrelas,
Adeus amigos
mulheres
efebos
Adeus sol:
Ouro algum permanece.

Dessa forma o tempo não é apenas tema para os poemas, assim como eles não são mera representação de uma possível realidade, mas a busca pela cristalização do efêmero, veja o belíssimo poema Desejo.
Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
a enfrentar um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.

A tradição literária ocidental é muito significativa e presente na obra de Cicero, para olhos menos atentos pode ser notado em diversas referências em Porventura, como em Auden e Yeats ou nas intertextualidades com Camões Diamante, ou Drummond Na Praia:
Na praia — parece que foi ontem —
ficávamos dentro d’água eu,
Roberto, Ibinho, Roberto Fontes
e Vinícius, a água era um céu,
e voávamos nas ondas trans-
parentes, deslizantes, do azul
mais profundo do fundo ciã
do oceano Atlântico do sul.
Mas era outro século: Roberto
morreu, morreu Vinícius, Roberto
Fontes quase nunca vejo, e Ibinho
casou e mudou. Já não procuro
o azul. Os mares em que mergulho
são os homéricos, cor de vinho.

Note que os versos (Mas era outro século: Roberto/morreu, morreu Vinícius, Roberto/Fontes quase nunca vejo, e Ibinho/casou e mudou.) tem extrema relação com o famoso poema Quadrilha, do poeta mineiro:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Em Blackout a intertextualidade é com o português Fernando Pessoa:
Passo a noite a escrever
Do lado de lá da rua
poderia alguém me ver,
daquele prédio às escuras,
em frente ao meu, e mais alto.
Que voyeur me espiaria?
De interessante, só faço
escrever. Ele veria
decerto a parte traseira
do computador; talvez,
daquela outra janela,
ele visse, de viés,
o lado esquerdo da minha
face de per fi l; jamais
entretanto enxergaria
certos versos de cristal
líquido que, mal secreto
com o sal do meu suor,
já anunciam segredos
só meus e de algum leitor
que partilhará comigo
o paraíso e o desterro,
o pranto que vem do riso,
o acerto que vem do erro.
Disso tudo, meu vizinho
nem de longe desconfia.
Mas e se ele, tendo lido
meus lábios, que pronunciam
o que na tela está escrito,
percebe-se desterrado
não só do meu paraíso:
do meu desterro, coitado?
E se ele a tudo atentar
e por inveja e recalque
me der um tiro de lá?

Melhor fechar o blackout.
Com versos brancos de sete sílabas, redondilha maior, o poema é construído a partir da percepção do eu poético que ao escrever vê a possibilidade ser visto, em seu quarto, a ler em voz alta o poema em construção, por alguém de fora, da rua ou outro apartamento, e esse observador sentir inveja ou recalque e acabar por lhe dar um tiro, assim o poeta encerra o poema fechando a cortina. Em extremo oposto ao eu poético do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, heterônimo Fernando Pessoa, que está em seu quarto a observar o mundo pela janela, porém se sente sozinho e à parte dele (Janelas do meu quarto,/Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é/(E se soubessem quem é, o que saberiam?),/Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,/Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,) o eu poético de Blackout é o centro das atenções, que mesmo sozinho em seu quarto ainda recebe atenção a ponto de incomodar alguém.
O ato poético para Cicero é desnudamento, por isso ser visto em pleno ato da escrita, causa no eu poético excitação, pois é na escrita que o oculto se revela, se mostra, veja o poema Poema:

Segredo não é, conquanto oculto;
mas onde oculto, se o manifesta
cada verso seu, cada vocábulo,
casa sílaba cada fonema?

Para o leitor, no entanto, o poema também é revelação, como também ocorre em Muro, poema que estava no projeto "Poesia em Concreto" da Mostra Sesc de Artes de 2008:

E se o poema opaco feito muro
te fizer sonhar noites em claro?
E se justo o poema mais obscuro
te resplandecer mais que o mais claro?

Se a poesia contemporânea busca sacralizar o banal e banalizar o sacro, a poesia de Antonio Cicero é recheada de referências a mitologia grega que funciona como arquétipo do homem contemporâneo, em palestra na Casa das Rosas, em 2013, o poeta afirma: “A Grécia é aqui”. Em inúmeros poemas de Porventura, como O poeta, O poeta lírico, O livro das sombras, Amazônia, Ícaro e 3h47 a mitologia Grega é o tema central, ou pelos menos referência: Veja, como exemplo, o poema Hora:
Para Alex Varella
Ajax não pede a Zeus pela própria
vida mas sim que levante as trevas
e a névoa a cobri-lo e aos seus em Troia:
que tenha chegado a sua hora
sim! Mas não obscura: antes à plena
luz do dia e sua justa glória.

Dois traços parecem ficar mais evidentes, em relação aos livros anteriores, o nilismo e o ateísmo, confira em:

Nihil
nada sustenta no nada esta terra
nada este ser que sou eu
nada a beleza que o dia descerra
nada a que a noite acendeu
nada esse sol que ilumina enquanto erra
pelas estradas do breu
nada o poema que breve se encerra
e que do nada nasceu


O fim da vida
Conheci da humana lida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.

VALEU
Vida, valeu.
Não te repetirei jamais.




 Em Porventura Antonio Cicero se consolida como um dos grandes poetas contemporâneos e mesmo que sua pena discorra sobre o cotidiano contemporâneo ou o mitológico, prova que no tempo da falta de tempo, que o poema é monumento, Poesia e Filosofia, capaz de nos fazer resistir a perenidade de qualquer tempo.




Como chama o nome disso?


Arnaldo Antunes não é um apenas um músico, um compositor, é também poeta, não é só poeta, também escreve em prosa, não é um prosador, ensaísta, apenas, tem trabalhos visuais, é artista plástico? Por que não? Porque Arnaldo Antunes é inclassificável.
Lançou sete discos com os Titãs, treze discos solos, além de outros trabalhos: Tribalistas, com Marisa Monte e Carlinhos Brown, e Pequeno Cidadão, com Edgar Scandurra, além de outros. Lançou, também, dezoito livros entre poesia e prosa. Além disso, já realizou inúmeras exposições de arte e poesia visual pelo Brasil, EUA e Europa.
A obra de Arnaldo Antunes é variada, mesmo quando o universo se restringe a poesia, poemas visuais, poemas em prosa, poemas em verso, além disso o poeta se vale do universo poético para trabalhar outros gêneros, outras linguagens, como o slogan, o aforismo, o provérbio, a desfragmentação de uma ideia ou palavra, a caligrafia, o ideograma e a fotografia.
Em 2009, lança a antologia Como é que chama o nome disso, pela Iluminuras. Reunindo alguns poemas de todos os livros lançados até então, também a série inédita Nada de DNA, além de ensaios, letras de canções e uma longa entrevista para Arthur Nestrovski, Francisco Bosco e José Miguel Wisnik em que além de outras coisas, fala de seus livros e disco, mostrando total consciência de seu trabalho. É o próprio poeta que nesta entrevista que diz:
(...) Na liberdade paras experimentar e para quebrar regras formais, ou para gerar associações inusitadas ou subverter a sintaxe convencional, ou criar novos vocábulos. Aí tem também um tanto de influência e de contribuição da tradição mais construtivista, da poesia concreta. Mas acho que no caso de minha poesia isso se junta com um lado lírico, da tradição lírica que vem em grande parte das letras de música e de outras formas de poesia. E tem um terceiro lado, que é um apego a coisas da contracultura, de a conquista formal estar ligada sempre a uma conquista comportamental. Essas coisas sempre me entusiasmaram e acho que a paixão pelo rock n´roll tem a ver com isso.
Todo poema de Arnaldo, não importa a forma, ou gênero, inclusive suas letras, surgem da palavra, não é a ideia que se concretiza por meio do discurso. A palavra sintetiza o discurso, gerando outros, sobre isso o poeta afirma:
(…) Não que a ideia venha antes, a ideia vem ao fazer, não é? A ideia já vem com palavras. Eu não penso uma coisa e depois penso em como dizê-la. Vou pensando nas várias formas de dizê-las até chegar na mais adequada, na mais precisa, na que melhor exprime aquele sentido. E, às vezes, nesse processo, chego a outro sentido, outra coisa que não queria dizer inicialmente, mas que se ergue, imprevista, muito mais interessante do que aquelas ideias que parti.
O título da antologia foi retirado da canção O nome disso, composta em parceria com Edgar Scandurra, cujo refrão é: Como é que chama o nome disso?/O nome disso é rotação/O nome disso é movimento/O nome disso é representação. No título do livro não há o ponto de interrogação, porém a oração ainda assim não soa como uma afirmativa. Aqui o verbo chamar, não está apenas no sentido de evocar, mas também de colocar chama, acender, é a palavra que ilumina o discurso, este surge por meio da analogia, como em Olho de Nome (1993), que foi musicado e faz parte do álbum Nome (1995):
palavra lê
paisagem contempla
cinema assiste
cena vê
cor enxerga
corpo observa
luz vislumbra
vulto avista
alvo mira
céu admira
célula examina
detalhe nota
imagem fita
olho olha
Todos os verbos, coluna da direita, são sinônimos do verbo olhar,, porém o substantivo, coluna da esquerda, sugere a ligação com o verbo, subvertendo a ordem natural, por exemplo no primeiro verso, o termo “palavra” se torna sujeito do verbo “Lê”, quando o mais comum seria objeto do verbo, pois a palavra não lê, mas é lida por alguém, é justamente essa conexão inusitada que torna o poema belo, no entanto o fato de estar em duas colunas faz com que ele possa ser lido, também, da direita para esquerda, tornando a leitura mais natural, lendo o verbo primeiro o substantivo tornar-se objeto: “lê palavra”. No entanto, a gravação da canção só há a leitura da esquerda para direita, reduzindo a possibilidade de significações dos versos.
No poema Nome não de Tudos (1990), que virou canção no disco Nome (1995), há a separação do Signo linguístico, a grosso modo, nome de algo, e Significante, o algo nomeado, observe:
Os nomes dos bichos não são os bichos.
o bichos são:
macaco gato peixe cavalo vaca elefante baleia galinha.

Os nomes das cores não são as cores.
As cores são:
preto azul amarelo verde vermelho marrom.

Os nomes dos sons não são os sons.
Os sons são.

Só os bichos são bichos.

Só as cores são cores.
(...)
Os nomes das cores não são as cores
As cores são:
tinta cabelo cinema céu arco-íris tevê

Os nomes dos sons.
Nos versos finais da penúltima estrofe: As cores são:/tinta cabelo cinema céu arco-íris tevê novamente a ligação entre os termos, e com verso anterior, se dá por meio da analogia entre os termos, todos os substantivos remetem ao adjetivo colorido, cinema, arco-íris, tevê, com exceção ao céu que remete a uma cor específica (azul), mas pode, também, ser o local onde se encontra o arco-íris.
No poema Tudo, de As coisas (1998):

Todas as coisas
do mundo não
cabem numa
ideia. Mas tu-
do cabe numa
palavra, nesta
palavra tudo.

É o inverso do poema Nome não, pois aqui o universo da palavra, do signo, e o universo da coisa, do significante, volta a se juntar (Mas tudo cabe numa palavra, nesta palavra tudo.), porém tornando o signo mais poderoso que discurso, ideia, (Todas as coisas/do mundo não/cabem numa/ideia).
No poema cromossomos, da série inédita Nada de DNA (2006),








onde as palavras: cromossomos, como, cosmos, somos e cromo, estão em uma estrutura circular, fazendo com as palavras se liguem criando inúmeros versos, como por exemplo: cromossomos como cosmos somos, ou como cosmos somos cromossomos. Essa estrutura de inúmeros discursos no mesmo verso é muito utilizada por Arnaldo, como no poema Que não é o que não pode ser, do livro Psia (1986), que se foi musicada pelos Titãs. Onde há a desfragmentação do verso, veja: Que não é o que não pode ser que/ Não é o que não pode/ Ser que não é/ O que não pode ser que não/ É o que não/ Pode ser/Que não/É. Sobre isso Arnaldo diz:
Um recurso bastante presente também na poesia de Augusto de Campos. Você acaba tendo dois ou mais discursos no mesmo espaço sintático. Sugestões de palavras dentro de outras, a partir da maneira como elas vão se quebrando nos versos.

A obra poética de Arnaldo Antunes não parte da ideia, assim o verso: Que não é o que não pode ser encerraria o poema, o método poético de Arnaldo principia da palavra. A palavra que pode ser um instrumento visual, daí o gosto pelas caligrafias, que incorporam no processo gráfico inúmeras características fonéticas ou de entoação da voz ou por meio da disposição, espessura, curvatura, movimentação, fragmentação, de traços e linhas. A palavra é também um instrumento melódico, musical, por meio das aliterações, assonâncias e repetições contínuas.
Como é que chama o disso é ótima amostra de todo o potencial analógico do artista Arnaldo Antunes, seja em poemas, caligrafias, fotografias, em letras de canções ou em qualquer outra coisa que não consigamos nominar. 



A formalidade do nada

Paulo Henriques Britto é contista, ensaísta, professor, tradutor consagrado e premiado. Além disso, é um dos grandes nomes da poesia contemporânea brasileira, em 1997, ganha o prêmio Alphonsus de Guimarães da Biblioteca Nacional com o livro Trovar Claro, em 2004, com Macau, o prêmio Portugal Telecom e em 2012, o prêmio Bravo! Bradesco Prime de Cultura com Formas do Nada

Neste livro percebe-se que o formalismo estético é a grande preocupação do poeta. Valendo-se do soneto de métrica tradicional, dez sílabas poéticas, predominantemente, executado com a destreza dos grandes mestres clássicos. A linguagem é coloquial, mesmo que em alguns poemas apareçam termos mais eruditos, nada populares. De maioria metalinguística os poemas remetem ao próprio fazer poético, veja o primeiro poema: Lorem ipsum

Venham", diz ele. "que eu lhe ofereço

sinéreses cesuras hemistíquios
e muito mais, e em troca só lhes peço
sofríveis simulacros de sentido.
Venham, que a noite é sólida e solicita,
e aguarda apenas o momento exato
de nos servir a suprema delicia.
como um garçom anódino e hierático."
Porém apelos lautos, tão melífluos,
atraem tão só máscaras sem rosto,
cascas vazias e rabiscos pífios.
Tudo resulta apenas neste dístico:
Ninguém busca a dor, e sim seu oposto,
e todo consolo é metalinguístico.
A poesia de Formas do Nada é para o eu-poético, ao mesmo tempo inócua e inútil, por esse aspecto o nome do livro revela muito de seu conteúdo. Veja o primeiro poema da série Oficina, grifo meu:
I
Escrever, mas não por ter vontade:
escrever por determinação.
Não que ainda haja necessidade
(se é que já houve) de autoexpressão,
ou sei lá qual carência faminta:
toda veleidade dessa espécie
estando de longa data extinta,
resta o desejo (que se não cresce
por outro lado também não míngua)
de estender frágeis teias de aranha
tecidas com os detritos da língua.
Uma ocupação inofensiva:
quem cai na teia sequer se arranha.
(E a maioria dela se esquiva.)


O fazer poético é uma ocupação inofensiva, porém necessária, pois é o combustível vital, veja em: Poética prática

A realidade é um calhamaço insuportável?
Tragam-me então resumos.
A vida que se leva é um filme inassístível?
Vejamos só os anúncios.
São os limites do corpo intrusões malignas
de um demiurgo escroto?
O corpo não é preciso, e o espírito é impreciso:
eu não é um nem outro.
Anda inconveniente a tal da poesia,
a significar?
Nada como um bom significante vazio
para abolir o azar.
É por meio do fazer poético que o eu constrói sua identidade, essa construção se dá pela via racional, mais confiável que a da memória, pois filtra toda emoção momentânea e deixa apenas o fato frio que inicia e conclui um ciclo, como destacados nestes poemas da série Biographia literária:

I
Lembranças pouco nítidas, provavel-
mente falsas. Imagens que se ordenam
segundo uma lógica indecifrável
talvez inexistente. Mãos que acenam,
uma porta entreaberta — não fechada —
uma criança que não reconheço:
ou seja, muito pouco mais que nada.
é tudo que me resta do começo
disso que agora pensa, fala e sente
que pode ser denominado “eu".
Claro que houve um instante- crucial
em que esses cacos mal e porcamente
colaram-se. E pronto: deu no que deu.
Já é alguma coisa. Menos mal.

V

Céu azul. Cores vivas. Você rindo
de alguma coisa ou alguém que está à esquerda
do fotógrafo, é talvez domingo.
É claro que essa sensação de perda
não está na foto, não — não está na imagem
extremamente, absurdamente nítida.
E se fosse menor a claridade,
ou se estivesse sem foco, ou tremida.
ou se fosse em sépia, ou preto e branco,
talvez a foto não doesse tanto?
Você, às gargalhadas. O motivo
você não lembra. A foto é multo boa.
Naquele tempo você ria à toa,
você lembra. Você ainda era vivo.
Nestes sonetos é possível notar que o poema surge por uma poderosa imagem inicial, esta imagem acaba criando uma cisão do eu-poético, causado pelo distanciamento temporal, instituindo um “eu” locutor e um “você” interlocutor, observe no poema I: (disso que agora pensa, fala e sente/ que pode ser denominado “eu".) e no poema V, (Você, às gargalhadas. O motivo/ você não lembra. A foto é multo boa./ Naquele tempo você ria à toa,/ você lembra. Você ainda era vivo.). 

Os advérbios estão presentes em quase todos os poemas, sobretudo os terminados em mente, perceba a bela construção desses versos, do poema I, (Lembranças pouco nítidas, provável-/mente falsas. Imagens que se ordenam) a quebra do advérbio “provavelmente” faz com que o sufixo ganhe status de substantivo “mente”, ampliando o valor semântico do verso, cabendo, também a leitura do sintagma “mente(s) falsas”

Este recurso, o enjambement, é muito utilizado por Paulo Henriques ao longo do livro, que consiste em conectar o verso posterior ao anterior, mantendo, assim, o encadeamento sintático, pois os dois versos constituem uma só frase. Veja mais um exemplo, no poema: Circular
Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é. Esta não é a primeira vez.
Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer
o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.
Sim. Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar
todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema. Talvez.
(O que você fizer não muda coisa/alguma. Perda de tempo dizer) cabe ressaltar que o enjambement traz a melodia prosaica ao poema, quebrando, ao menos sonoramente, o acento duro, seco e previsível do soneto, trazendo certa malemolência, lembrando por vezes até o ritmo da fala cotidiana do carioca, o que difere muito de João Cabral de Melo Neto, uma grande influência, porém na ausência do enjambement é possível notar ecos do bardo pernambucano. 

Neste poema como em muitos outros de Formas do Nada a vida só é válida depois de estar presente de forma racional no poema, (Melhor calar-se para sempre, em vez/ de ficar o tempo todo a alugar/ todo mundo, sem sair do lugar,/ dizendo sempre, sempre, a mesma coisa/ que nunca foi necessário dizer./Como faz este poema. Talvez) e talvez por isso o eu-poético parece estar distante, ser penas um espectador objetivo, nada emotivo, nem lírico, dos fatos de sua vida. 

Paulo Henriques Britto prova com Formas do Nada que ainda há espaço para a poesia de estética formal herdeira dos mestres do passado, cujo conteúdo dialogue com a vida, as ilusões, as desilusões, os temores e os amores contemporâneos, porém aos olhos do mercado, até do editorial, isso é pura banalidade, é apenas nada. Já aos amantes da poesia é um nada imprescindível para uma vida plena.

A legitimidade da poesia de Tonho França no mundo contemporâneo

             A sociedade capitalista de consumo conseguiu tirar do homem sua verdadeira essência: a humanidade. O homem se tornou, apenas, um consumidor inconsciente de desejos e produtos de que não precisa. O capitalismo impõe, a cada dia, sua filosofia de inconsciência e futilidade, transportando o pacto de obediência às grandes empresas, outrora à igreja e à monarquia. O homem contemporâneo é consumidor e consumido neste sistema[1]:
Uma descrição superficial da sociedade contemporânea deveria incluir outros traços não menos perturbadores: o agressivo renascimento dos particularismos raciais, religiosos e linguísticos ao mesmo tempo que a dócil adoção de formas de pensamento e de conduta transformadas em cânone universal pela propaganda comercial e política; a elevação do nível de vida e a degradação do nível da vida: a  soberania do objeto e a desumanização daqueles que o produzem e usam; o predomínio do coletivismo e a evaporação da noção de próximo. Os meios se tornaram fins: a política econômica no lugar da economia política; a educação sexual, e não o conhecimento do erotismo; o aperfeiçoamento do sistema de comunicações e a anulação dos interlocutores; o triunfo do signo sobre o significado nas artes e, agora, da coisa sobre a imagem... Processo circular: a pluralidade se transforma em uniformidade sem suprimir a discórdia entre as nações nem a cisão nas consciências; a vida pessoal, exaltada pela publicidade, se dissolve em vida anônima; a novidade diária acaba sendo repetição, e a agitação desemboca na imobilidade. Vamos de lugar nenhum a parte alguma. “Como o movimento no círculo” — dizia Ramón Llull —, “assim é a pena no inferno.”  
           
            Neste contexto qual o papel da poesia contemporânea? Do poeta contemporâneo?  A poesia surge junto com a magia antes da escrita. A poesia era um ritual religioso, em sociedades primitivas, da mesma forma que a dança e a música, com o surgimento da escrita a poesia passa a ser uma arte verbal, com a invenção da imprensa a poesia se separa definitivamente da música, então perde seu caráter coletivo. O poeta era visto como representante, a voz, de um povo, como na poesia épica de Homero, Virgilio e Camões, após a invenção da imprensa, por Gutemberg, a poesia passa a ter o caráter individual, um olhar de cunho íntimo e subjetivo, o poeta e crítico Carlos Felipe Moisés, [2]sobre isso, diz:

Mas não é só na identidade do poeta que a mudança interfere. A própria poesia, como forma e como matéria, vai aos poucos perdendo seus vínculos como o modo de ser coletivo, passando a encaminhar-se no rumo das inquietações pessoais do poeta, cuja voz, tendo deixado de ecoar fora, passa a aguardar no silêncio da página impressa que a intervenção do leitor lhe atualiza as potencialidades, tornando-a voz de todos. Não sendo mais convocado para as celebrações comuns, que no entanto prosseguem, o poeta passa a enfrentar o dilema virtualmente insolúvel do ser dividido entre personalidade civil e personalidade literária.
            Com a ascensão da burguesia e seu ideal de aparência e ostentação de bens materiais, o poeta de voz representante do povo passa cantar suas próprias inquietações. O olhar íntimo revela seus embates, questionamentos e reflexões[3]:  

Nessa altura entre o final do século XVIII e o final do século XIX, o isolamento do poeta (fantasia ou excentricidades “literária” que se desenrolava desde o século XVI” passa a ser experiência efetivamente vivida pelo homem comum. Antes da mudança que levara a poesia transitar da forma oral para a forma escrita, o poeta se identificava com o meio e era por esse reconhecido como tal; tempos depois a relação ironicamente se inverte: agora é o homem comum que, sentindo-se “excluído”, pode vir a se identificar com o poeta, desde que veja nos devaneios e estranhezas da nova poesia confessional o retrato indireto de suas ansiedades pessoais, banhadas de incerteza, no encalço de um “rosto próprio” e de autoafirmação. E, claro está, desde que a rasa mediocridade da vida cotidiana lhe permita apercebe-se desta possibilidade.

            Na modernidade o poeta torna a se voltar para o coletivo, no entanto a partir do olhar subjetivo, porém crítico, pode-se dizer ideológico, apontando sentimentos e emoções contraditórios sobre o progresso, gerados a partir da revolução industrial, que fez com que o ambiente urbano prevalecesse sobre o rural, ao se referir ao homem moderno, o poeta se refere ao homem urbano o que gerará a desilusão e o niilismo da época, como aponta Carlos Felipe Moisés[4]:

Instalado agora no meio da rua malcheirosa e vulgar, mas sem abrir mão de suas ambições oníricas e metafísicas, essa nova poesia representa uma reviravolta profunda em duas direções concorrentes: a banalidade cotidiana deixa de ser alheia aos interesses do poeta, assim como as excentricidades do mesmo poeta deixam de ser alheias aos interesses do homem comum. A poesia não constitui mais um universo paralelo, incomunicável, às margens do qual a vida real continue a fluir. Eliminadas ou abstraídas as máscaras e disfarces de parte a parte, o “paraíso artificial” do poeta e a rua banal da vida diária tornam-se instâncias permeáveis. Trata-se enfim do mesmo universo comum, conturbado e heterogêneo, inóspito em relação não só aos poetas, mas também ao leitor, ainda que este eventualmente não se dê conta disso.  Tal é o núcleo da reviravolta baudelairiana, destinada a impregnar sob variadas formas boa parte da poesia do nosso tempo.

            A poesia contemporânea atua como reação à sociedade capitalista de consumo, evolução do capitalismo de produção, que acaba por retirar do homem sua individualidade ao fazer com que ele seja apenas mais um consumidor entre a massa de consumidores. Como afirma Bauman[5], sociólogo polonês, o ato de consumir é mais importante que o produto consumido.  A sociedade contemporânea, também chamada de pós-moderna, apresenta a dissolução das concepções ideológicas, Haroldo de Campos adota o termo “pós-utópico”. Nesta perspectiva a poesia se apresenta em várias frentes formais, como apresentado em meu artigo As várias artes poéticas contemporâneas, onde demonstro algumas possibilidades da poesia contemporânea como: uma pautada no experimentalismo formal, difundido pelo concretismo, mas sem o caráter de vanguarda, — pois esta não existe sem as utopias, segundo Haroldo—, e outra no olhar voltado ao presente, mas com intenso diálogo com a tradição, principalmente em seus aspectos menos explorados.
             Em contexto geral, como aponta o poeta e crítico Claudio Daniel[6], pode-se dividir a poesia contemporânea em dois grandes grupos: aquele de poetas de maior lirismo explorando a vida cotidiana, com vigor estético, sem cair no simples confessionalismo sentimental, um outro de poetas cerebrais, que utilizam processos de composição mais rigoroso e forma desafiadora:

O império do pós-moderno, que vaticinou o fim da história e o eclipse das utopias, sob a hegemonia do capitalismo predatório neoliberal, só poderia mesmo conduzir a dois caminhos opostos: o da negação da ideia de vanguarda e o da (re)afirmação dos conceitos de invenção e pesquisa estética. Enquanto o primeiro faz a apologia da adoção de formas canonizadas por certa crítica universitária, como a poesia coloquial e discursiva centrada no cotidiano,  reverberando o Modernismo dos anos 30, o segundo retoma a exploração de novos processos e procedimentos de escritura, como resposta, no plano formal, ao discurso banalizante da mídia.

            Um grande poeta contemporâneo representante deste primeiro grupo, é Tonho França, pseudônimo de José Antonio Muassab França, nascido em Guaratinguetá, começou a escrever muito cedo aos 12 anos para o jornal “A Tribuna do Norte” de Pindamonhangaba. Após anos como bancário em 2002 dedica-se somente à poesia, neste ano publica seu primeiro livro, já esgotado, Entre Parênteses. No ano de 2004 lança Sinos de Outono, em 2007 ao ganhar o Concurso Carioca de Poesia FENAC/ ABRACI/ ABL (Academia Brasileira de Letras) tem como parte do prêmio a publicação de Blues à Tarde, em 2009 lança O bebedor de auroras. Participou de várias antologias, publicou em vários jornais e revistas de inúmeros estados do país.
            Ganhou diversos prêmios, 3º lugar Nacional IV Festival Carioca de Poesia Prêmio Lya Luft, 3º lugar Nacional Prêmio Missões Rio Grande do Sul, 1º Lugar no IV Festival de Arte em Osasco e representando Guaratinguetá, com o poema Blues à Tarde, venceu o Mapa Cultural Paulista edição 2007-2008. Nestes últimos anos Tonho, também, dedica-se à carreira de editor e proprietário da Editora Penalux.
            Quem conhece pessoalmente Tonho França sabe que ele é um ser que, além de escrever, emana poesia. Tonho é um homem raro, transpassa serenidade, sobriedade e bondade em suas palavras e gestos. Quem tiver um simples bate-papo com ele, é certo que sairá inundado. Tonho França é mais que poeta, Tonho França é poesia.
            Em seu segundo livro Sinos de Outono,de 2004, editora Komedi, Tonho França, dá mostras de seu estilo e sua voz inconfundíveis. O livro é dividido em cinco partes: Angústia do poeta, Os contrastes da fé, A busca do amor, O que fingimos não ver e Auto-Reflexão e aceitação do fim. O livro não apresenta nenhum experimentalismo estético, todos os poemas em uma única estrofe, em versos livres, sem métrica regular ou esquema de rimas.
            O Outono é uma estação intermediária entre o Verão e o Inverno, apresenta noites mais longas que os dias, assim a estação propicia certa introspecção, pois não se tem o calor e a alegria que o Verão proporciona e o recolhimento e aconchego do Inverno.
            A angústia e a solidão dão o tom do livro, não à toa que está presente no título da primeira parte, a mais longa, além disso, inúmeros poemas são metalinguísticos, apresentam o fazer poético como ferramenta contra a angústia, as mazelas de um mundo injusto ou a favor do recomeço, é a partir do fazer poético que o poeta pode se ouvir e tomar as rédeas da vida.
            A angústia do poeta apresenta um eu-poético de olhar crítico acerca da realidade que o rodeia e percebe que essa realidade imposta é imutável e acaba por ditar “verdades inquestionáveis”, porém cabe ao poeta ser a voz da resistência contra o senso comum, como assevera Octávio Paz[7]:
           
 O poeta (...) não fala a linguagem da sociedade nem comunga com os valores da atual situação. A poesia do nosso tempo não pode escapar da solidão e da rebelião,a não ser através de uma mudança da sociedade e do próprio homem”

            É essa voz de resistência que se apresenta logo no primeiro poema do livro. Tempo:

O tempo é estático,
Somos nós que passamos.
Os amores não acabam
Somos nós que de amores mudamos.
As flores são eternas
Nós que a vemos murchando.
Toda dor é perene
Somos nós que nos acostumamos.
Toda hora é para sempre
Pena, que sempre abreviamos.
Toda chegada é partida, e é definitiva.
Somos nós que nos ausentamos.
Todas as lágrimas são repetidas
Somos nós que de novo derramamos.
Todas as respostas estão prontas
É nas perguntas que erramos
Todos os mortos estão vivos, e serenos
Fomos nós...que morremos.

Nesse poema o eu-poético percebe que o indivíduo é que se transforma, não a realidade e é justamente isso que gera sua angústia e inconformismo, porém esse indivíduo não se vê com forças para agir sobre essa dura realidade, assim o eu-poético enxerga na morte o único alívio. Essa mesma questão pode ser encontrada no poema Rodamoinhos, de forma belíssima Tonho França nos apresenta o próprio fazer poético como metáfora da vida:

Os rodamoinhos da vida
Não moem o que sinto agora
Os céus, as providências, as bênçãos
Não aliviam aquilo que me devora.
E o dia, a cada hora, cruel e voraz
Afia mais e mais seu corte,
Não me permite olhar para trás.
Assim, sem opção, sem pressa
Pesado como uma promessa,
Definitivo como sina,
O poeta calado se procura em ruínas,
Pois sabe o fardo do verso que começa
Mas nunca saberá onde termina.
E mesmo vivo, sabe ser a morte
A conclusiva, a única e definitiva rima.

A realidade opressora que cerceia o direito do indivíduo de sonhar, a não ser com o ato de consumir, e o fazer poético como metáfora para vida, também são temas do poema Corte... o sintagma verbal Vou escrever, significaria vou viver e viver, nessas condições, nos faz perder a inocência:

Vou escrever ferindo,
Sangrando, partindo, cortando as amarras,
Incendiando normas, paradigmas
Perdoando, onde castiga.
Vou escrever sorrindo,
Mesmo que me perca
Em manhãs frias e vãs.
Vou quebrando as louças, todas...
Vou abrindo as janelas,
Lembrando as sequelas,
Juntando, onde esfacela.
Vou escrever culpando,
Cobrando, riscando tua consciência,
Versos de fogo, sem nenhuma clemência,
As crianças todas já não sonham mais,
Caminham mortas, por penitência,
E o céu lá fora, a todo o momento
Lembra a nós todas as nossas culpas
Há muito perdemos a inocência.

Também no poema Moinhos, principalmente em seus versos finais, encontra-se a visão do indivíduo oprimido pela realidade: 
          
Há um certo pesar,
Mas em constante movimento que devora.
Atrevida, é a parte má do tempo.
Marcas quase invisíveis, mas fatais,
Aos poucos nos corroem por dentro.
E mesmo que pensemos estar de pé,
Na verdade, há muito ruímos,
Separados do vento, somos restos de moinho.
           
Há uma antítese, vida/morte nestes versos: (E mesmo que pensemos estar de pé,/Na verdade, há muito ruímos), no poema Avesso de mim, é construído a partir desta figura de linguagem:

O avesso de mim, som e silêncio,
Em tom de cinza, suave e marfim.
Ora fere, grita, sangrando corta,
Outras vezes cala, ausenta, definha,
Alinha-se, em tão torta linha.
O avesso de mim, aflição e sossego,
Em nuances cáqui, relevos de medo.
Ora adere, fere, torna-se inerente,
Outra exala, espalha, inala e flui
Fazendo-se, tão cedo, ausente.
O avesso de mim claro e escuro,
Em traços rápidos, ora lépidos, seguros.
Ora em versos livres diz tudo
Que mudo ainda teima em omitir
Ora calado insistente, e do lado de fora
Assiste ao pouco que resta cair.

A antítese, segundo o Houaiss eletrônico, é uma figura estilística que aproxima dois opostos na mesma frase, neste caso verso ou versos, assim temos a aproximação dos termos som/silêncio, grita/cala, Alinha-se/torta linha, claro/escuro, diz tudo/mudo.
  Já o poema Correntes, o único poema desta primeira parte a ter um tom esperançoso, o eu-poético, se desprende das correntes da realidade que lhe oprime:

Solto minhas amarras,
Arranho minhas correntes,
Entorto meus trilhos
Não reconheço os caminhos,
E nem medo eu erro somente,
E me espalho em grãos pelo chão
Sementes.
Quebro minha bússola
Desoriento meu norte
Desnudo meu lado mais forte
E construo-me de retalhos
E me entrego de vez, feliz,
Livre como meretriz,
Aos carinhos dos atalhos.

A predominância do fonema (R) soa como um rosnar e o fonema (r) soa como um quebrar (Solto minhas amarras,Arranho minhas correntes,/Entorto meus trilhos/Não reconheço os caminhos,/E nem medo eu erro somente,),  o eu-poético se vê raivoso ao se desprender de tudo o que o prende (Quebro minha bússola/ Desoriento meu norte)  e desnudar-se para ser livre, assim, como consegue se libertar, o eu-poético encontra a liberdade, não há morte como nos demais poemas.
No segundo capítulo, Os contrastes da fé, Tonho França, se mune de palavras universo ritualístico religioso, principalmente católico, como cálice, sinos, pão, rosário, cruz, penitências e calvário para cantar sua desilusão religiosa, ao apresentar poemas que soam como ladainhas do homem que se vê dividido entre duas fés ou cruzes a carregar: os ideais do mundo místico e os ideais do mundo do consumismo. Veja o primeiro poema Calvário:

No cálice que se diz Santo,
Busco a embriaguez permanente.
No sacro soar enferrujado dos sinos,
Eu rio e choro, numa dança demente.
No resto do pão mal dividido
Farto-me como se fosse banquete.
Nas penitências que não absolvem
E não nos redimem as falhas
Eu adormeço, e a cruz que carrego
Não pesa mais que palha.
Pelas mãos erradas que constroem o Sacrário
Pelas contas, tontas, de tantos dedos
A girar o rosário.
Pela porção “anjo” e “demônio”
Que nos é hereditário.
Pelas vozes que orientam e confundem
E não hesitam em nos crucificar a todo instante
Confesso-me culpado, por ainda ser tão parecido com antes,
E não preciso de nenhum julgamento, sigo só, voluntário.
Pois meu corpo tem as trilhas, os trilhos, chegarei ao meu calvário.

  Neste poema o eu-poético atua como um iconoclasta ao duvidar da santidade do cálice e se referir a um soar enferrujado dos sinos e dizer que a cruz que carrega não pesa ou até mesmo a dizer que mãos erradas constroem o Sacrário. Em tom de oração o poema apresenta o corpo físico como ferramenta para a absolvição ou condenação do espírito. 
  Já Descrença é uma belíssima crítica às instituições religiosas. O eu-poético ao utilizar, mais uma vez, o artifício da antítese (No branco da hóstia santa/ No tinto do vinho amargo... Vejo-me em calmarias e tempestades/ Entre pradarias e desertos/ E percebo o demônio dentro do anjo/E o anjo que o demônio contêm) confessa estar perdido, pois não possui nenhuma ideologia (Pela falta de verdades absolutas), e põe em cheque toda instituição religiosa que, em nome da fé, erguem inúmeros templos por meio do dinheiro de fiéis que não percebem que são presas fáceis de vigaristas profissionais:

No branco da hóstia santa,
No tinto do vinho amargo
Eu me confesso perdido.
Não me encontro nos confessionários.
No ermo escuro da fé
Quase sempre tropeço.
Na prepotência do que não espero,
Na onipotência do que não enxergo,
Eu sempre me despeço.
Pela falta de verdades absolutas
Sinto-me tonto entre o azul do errado
E a rigidez natural do certo.
Vejo-me em calmarias e tempestades
Entre pradarias e desertos
E percebo o demônio dentro do anjo
E o anjo que o demônio contêm
E as pessoas em filas não veem
Não mudam, e mudas, só dizem amem.

  Outro poema que mostra a perda da fé religiosa é Manhãs, veja os versos finais do poema:

(...)E os sinos que ainda ouço
Não celebram nada de novo
Apenas ecoam badaladas repetidas
Incomodando as nuvens, com suas mãos
De bronze, sem fé nenhuma.

Na terceira parte A busca do amor o eu-poético encontra-se, mais uma vez, desiludido, porém desta vez é com o amor, veja, como exemplo, o poema Rosas:

Eu esperava pelas rosas.
Por que vieram flores desconhecidas?
Fossem de qualquer cor, mas rosas!
Que até lembrassem um outro amor,
Mas eu esperava pelas rosas.
Já éramos tão íntimos
Cada qual em sua solitude,
Amplos em seu abandono,
Cúmplices da mesma espera,
Que nunca acontecia.
Pois poetas brotam no outono
Rosas brotam à revelia.
E enquanto anunciam a primavera,
Esquecem o poeta, e em festa
Embriagam-se de poesia.

Em alguns poemas desta seleção revelam que o fim de um amor também pode ser o fim de um ciclo ou de uma vida, como no poema Sem amor: (O universo em profunda dor silencia/ Enquanto anjos reerguem as ruínas, Pois sabem, o mundo morre um pouco/ A cada amor que termina), em Ateu (E essa dor que não passa, e não me permite esperar/Já cumpri minha jornada/ Deixa o tempo me levar) ou e Pulsos (E mesmo que haja amores lá fora, eu em mim me abandono/Minha alma se recolhe num estado de silêncio absoluto/Preciso que caiam todas as folhas, serei eu meu próprio outono/Sem pressa de um dia renascer, hoje eu preciso viver meu luto). Já em outros há referência explícita da literatura, especificamente da poesia, e da música como em Margaridas, Ilha, Poema para ler e jogar fora, Mudanças e Navalha.
Na quarta parte, O que fingimos não ver, Tonho França nos brinda com de alguns de seus poemas de protesto contra as mazelas do mundo contemporâneo. De forma simples e direta o poeta se vê pequeno e inútil contra a injustiça social, como em Protesto, Excluídos, Navio Negreiro (séc. XXI), veja um exemplo:

Perdão
Pelos que hoje não vão comer,
Pelos que ontem já não comeram.
Pelos que hoje vão praguejar,
Vão desistir, vão se derrotar, se perder.
Pelos que hoje vão morrer ao nascer,
Pelos que hoje vão assaltar
Enquanto a polícia não vem
Enquanto o médico dorme
Enquanto os políticos conspiram
Enquanto eu fecho a janela e escrevo.
Enquanto o mundo finge se preocupar
Com as crianças da África,
 Com as árvores da Amazônia
Com a escassez da água.
Pelos que hoje se renderam,
Pelos que hoje enlouqueceram
Enquanto a polícia dormia
Enquanto os políticos vendiam o Amazonas
E eu só escrevia poesias.

Em Auto-reflexão e aceitação do fim, o último capítulo do livro, em tom de resignação os poemas tem como mote central o retorno, após as Andanças o poeta se recolhe em si mesmo:

Ando solto aos ventos errantes,
Meio com a voz rouca, com uma febre estranha
Por caminhos que me deixam tonto
Com o rosto sujo de batom barato,
Com a alma toda unhada em trapos.
Sem coração algum, sem verso algum.
Descrente de amores, de sonhos,
De portos seguros e ternos,
Com o hábito dos bêbados,
Com o peso das prostitutas,
Com uma poesia faltando a última rima
E com um olhar passado, caçando estrelas
Num céu que nunca termina.

Blues à tarde é o terceiro livro, de 2007, lançado pela carioca Multifoco, se a literatura beat pode ter como trilha a batida do Jazz, mais precisamente do Bebop, a poesia de Tonho França tem o Blues, o tom levemente melancólico e saudosista de um solitário que tenta recompor o passado, já inexistente, perdido, diluído no tempo, mas ainda preso em objetos e fotografias. Novamente, Tonho se vale de poemas de estrutura simples, uma só estrofe, sem esquemas de rimas, versos extremamente melódicos, alguns se repetem como se fossem refrão, vocabulário erudito, nos versos finais de quase todos os poemas, há o arremate que multiplica seu significado semântico. Veja um exemplo em Aparador:
 
Sobre a madeira calma e antiga
Um oratório barroco, imagens
Candelabros cantam com anjos
Os segredos das vidas e das velas
Em lenta e suave dança de chamas
Aos olhos atentos da Santa,
No aparador da sala de estar
No aparador da sala de estar
Não para a dor de estar
Só...
Aqui o verso (No aparador da sala de estar) se repete por duas vezes, já no próximo (Não para a dor de estar) apresenta o sintagma nominal (No aparador) desfragmentado em (Não para a dor) aproveitando a similaridade sonora, mas com outro sentido semântico. Essa mesma estrutura rítmica e semântica reaparece em Voo, aqui acaba por contribuir ao dar ao poema um tom de inebriamento (Mais um vinho e vou para casa/mais um vinho e vou/mais um vinho e voo/ asas).
Café da manhã, não fosse Blues à tarde, seria o melhor poema do livro, de estrutura e linguagem muito simples, mas extremamente tocante por revelar a dor de uma manhã e o choro saudoso eu-poético a se perceber, olhando uma fotografia:

 Não há poesia,
Foste tão antes do dia,
O café na mesa servido,
Gentilmente me fez companhia,
Borrando junto com minhas lágrimas
A tua fotografia.

Em Saudade Tonho apresenta sua definição para essa palavra:

É amanhecer todo dia
    insistindo em ver


  a mesma fotografia

Em Tulipas amarelas (cenas de uma sala ou de uma vida)  há um jogo semântico com a palavra tragar (Descansam na porcelana fria do vaso./O mesmo cachimbo, e tudo que não trago) em uma primeira leitura, trago seria a primeira pessoa do verbo trazer, em outra trago seria o verbo tragar, sorver, inalar a fumaça do cachimbo.
 No poema Noite o sentimento de solidão é utilizado para um diálogo intertextual com os versos (Meu Deus, por que me abandonaste/se sabias que eu não era Deus,/se sabias que eu era fraco) do Poema de sete faces de Carlos Drummond de Andrade:

A noite crava em mim suas garras de solidão,
Como a cobrar-me por todas as culpas,
Como se eu fosse o último dos homens.
Minha sombra desfalece ao meu lado,
No chão, só lembranças...
Não sabiam que eu não era forte?
Não sabiam que eu não era Deus?
Por que me deixaram só?

Ainda há outras intertextualidades: em Dor o diálogo é com Chico Buarque (Sem receio gritar meus temores/ Mostrar minha fraqueza em seu ápice/ E pedir sem culpas/ Pai, afasta de mim esse cálice.), em Pássaro Preto... (nada será como antes), com Beatles e Milton Nascimento: (Black Bird/As tempestades virão/ De um céu claro, verão). O poema Concretismo...é belíssimo, o título faz referência à poesia concreta dos irmãos Campos e Décio Pignatari, mas também a imagem de uma metrópole, cercada de prédios, neste poema Drummond é explicitamente citado, talvez em referência ao poema A flor e a Náusea, veja:
  
Vejo-me entre arranha-céus, cinzas
Concretos, luzes, avenidas, semáforos,
Esquinas com perfumes e moças Pedestres nas faixas A vida na faixa Meu rosto não tem marca de nenhum batom No sobretudo uma rosa vermelha Um poema de Drummond na ponta da língua Um piercing tatuado no busto da praça Um menino dorme no chão (a vida na faixa: contramão) No sobretudo uma rosa vermelha Drummond na ponta da língua Arranha o céu Arranha Em vão. Pelos canteiros da avenida Brilha um alecrim-de-angola distraído O charuto cubano mantém-me sóbrio Apesar do cheiro de anis, (não aspiro à pressa dos prédios e dos homens) Os elevadores presos no subsolo Deixa-me com sensação de liberdade e improviso (lembra-me blues, solos de blues) Ainda tenho uma ampulheta, Uma estatueta de louça Fotos onde amarelam sorrisos brancos de tantos amigos (todos ali estáticos como se não houvessem partido) Um sax americano dos anos sessenta E alguns selos antigos (o camelô da esquina vendia-me até sonhos...) mas o charuto cubano é legítimo essa lágrima que verte sozinha, é legitima o verso que hoje não escrevi fez-se por si e é legítimo e essa pausa na tarde que ecoa flauta doce, faz o sol pôr-se em mim, sol em mim solos de blues, solos de blues, solos de mim...            Ernest Fischer[8], afirma: Em todo poeta existe certa nostalgia de uma linguagem “mágica”, original. Em O Bebedor de Auroras, de 2009, Editora Multifoco, Tonho França traz, novamente, sua lírica íntima e sintaxe peculiar para resgatar do mundo contemporâneo, a cada dia repleto de surpresas, armadilhas e contradições, a humanidade perdida. Alguns poemas deste livro apresentam um rigor estético mais apurado, pode-se encontrar poemas com duas ou mais estrofes, versos formados apenas por uma única palavra.


Neste poema o eu-poético encontra-se na rua, é mais um observador urbano, o verso em parênteses ganha uma conotação externa, é como uma reflexão do poeta em meio à observação, os versos finais o verbo Arranhar tem sentido próprio, mas também atua como parte da palavra arranha-céu, como sinônimo de edifício.
Este mesmo cenário urbano reaparece no último poema do livro, Blues à tarde (com flauta doce), vencedor do I Concurso Carioca de Poesia – FENAC/ ABRACI/ ABL (Academia Brasileira de Letras), obra-prima de Tonho França é um poema belíssimo, serviria como símbolo temático de todo o livro:

Pausa à tarde ecoa flauta doce

O eu-poético solitário no ambiente urbano, em meio a uma tarde, talvez corriqueira, tem uma epifania poética ao ouvir o som de uma flauta doce, se colocando à margem da vida da grande cidade (não aspiro à pressa dos prédios e dos homens),/ Os elevadores presos no subsolo/ Deixa-me com sensação de liberdade e improviso/(lembra-me blues, solos de blues) aqui o verbo aspirar apresenta dois sentidos semânticos, inalar ou desejar a pressa dos prédios e dos homens, assim como a visão de pessoas em elevadores dá ao eu-poético a sensação de liberdade e nostalgia, os objetos: ampulheta, estatueta de louça, fotos, sax e selos representam o tempo aprisionado   (todos ali estáticos como se não houvessem partido), a sequência:  (o camelô da esquina vendia-me até sonhos...)/mas o charuto cubano é legítimo/essa lágrima que verte sozinha, é legitima/o verso que hoje não escrevi/fez-se por si e é legítimo) é belíssima, a repetição do sintagma é legítimo/legítima, traz o encadeamento semântico para os versos posteriores e, também, ao anterior: (o camelô da esquina vendia-me até sonhos...), pois este sintagma dá uma outra conotação a presença do camelô, de apenas figurante de uma grande cidade, passa a ser um dos agentes, vendendo o charuto cubano que, ao lado da flauta, desencadeia a manifestação poética ao deixar o eu-poético sóbrio, aqui sóbrio é aquele que percebe que a vida contemporânea tira do indivíduo a contemplação do mundo, material e imaterial, que o cerca.

            A experiência individual do eu-poético, traz ao livro um tom de saudade e de desencanto, talvez contaminado pelo sentimento de desencaixe, como se pode notar, neste trecho de Tardes Artificiais

     aprendi a ver através das margaridas, mas não entendo mais o
                                                                       [olhar dos homens
                                                  (...)
                                                                      
Ou em Muros:
                                               A toda hora
                                             A todo momento
                                        Estou fora ou dentro?
                                                                                 
     A pena de Tonho corre, mais uma vez, sobre o fazer poético, em inúmeros poemas se encontram as palavras: versos, poesia e poeta, isto em consequência à reclusão no presente do eu-poético fragilizado pelas incertezas do futuro e as recordações do passado, como em Autorretrato (Diálogo do último dia):

Meus olhos, embora cansados,
Pressentem o que não podem ver
Aprenderam com o meu silêncio
– rituais e rotinas de solidão –
Meus instintos guardam a memória dos amores
E de tudo o que me é caro e que meu coração...
Já não suportaria.

E de nada me adiantam, agora, lembranças,
Penitências, alegrias ou arrependimentos
­Estou recluso nos versos –
E nas minhas dores, culpas
Nos enfrentamentos em calmos e intermináveis silêncios
Abertos, vulneráveis, extremamente íntimos
E despidos de profecias, santos e defesas,
Num encontro definitivo, conclusivo, coeso

Do qual nem poeta, nem poesia, saem ilesos.

            Em O Bebedor de Auroras permanece a estilística singular de construção dos poemas de Tonho, da qual aproveita fragmentos de versos anteriores para dar aos posteriores outras significações, veja um exemplo em Procissão:

     As ladeiras de pedra
     Os homens a seguir o destino em procissão
     As ladeiras de pedra e os homens a seguir
     As ladeiras de pedra tentam a remissão:
     Os homens de pedra a seguir vão,
     homens de pedra a seguir
     os homens, em vão.
                                        (...)
                                                                          
            Na construção sintática, Tonho França também é mestre, trabalha duas orações coordenadas, porém com um inusitado segundo elemento do paralelismo, Canto III:

Meus olhos guardam os segredos da morte
Suas mãos enrijecidas em pétalas de mármore-rosa
Colhiam maças e notas musicais.
Era mulher, bela e andava despida sobre o sol e o tempo
A vi em sua plenitude
Com seios claros em ágata e flores
Dentes de sabre e línguas de fogo
E nos lábios o hálito cítrico do veneno dos deuses.

Meus olhos guardam os segredos da morte. 

Correndo ao vento com cascos de corsa
Mulher, bela, despida sobre o sol e o tempo
Olhos em tons de universo, sacro e profano
Mãos justas e braços maiores que demônios e anjos
recriando a vida em seu útero infinito
Divinamente
Humano

            A repetição do fonema (S) dá ao poema um tom de mistério, como se fosse uma canção ritualística e, também, como a ausência desse fonema nos últimos versos clareia e valoriza a vida dentro do útero. O som do fonema (S) age como uma cortina que aos poucos revela esse útero divinamente humano. 
                                                                          
            Mares... destoa do resto do livro, o uso constante da mesma rima dá ao poema um ritmo arcaico:

Os barcos deixam o cais,
Aventuram-se e deixam o cais,
Nas ondas inseguras, deixam o cais,
Levando as desventuras, deixam o cais,
Nas noites tão escuras, deixam o cais,
Deslizam entre espumas e corais,
                                        (...)
  Ainda na linguagem que o poeta utiliza para suas auroras o destaque fica por conta de Metrópole:

Pivete no semáforo
(vida?)
Vende balas
(perdidas)
                       
            O uso dos parênteses dá ao poema outras possibilidades de interpretação, pode-se ler só os termos que estão fora deles, apenas os que estão dentro, ou ainda embaralhando-os.
            Em Vida vista pela janela (cenas de um tempo sem sentido), um dos melhores poemas do livro, Tonho nos ensina:

É preciso nos lavar de nós mesmos  (..)

            Em uma sociedade que é regida pelo olhar mercadológico, seu olhar sensorial recai sobre os homens desumanizados, então resta, apenas, concordar com as palavras do poeta em Dia a dia:

Já aprendi a sobreviver nas esquinas definitivas
E sinto como é pesada a franqueza
Escrevo abaixo da “linha da pobreza”
Dentro dos olhos e com muita dor
Mas não me iludo, não me engano
Meus versos são pelos seres humanos
A poesia é para sermos humanos   (...)

            A voz auscultada das páginas de O Bebedor de Auroras traz a entonação do entardecer, apesar do título constar como auroras, a palavra tarde é recorrente em muitos de seus versos, assim como ecos de um homem, em uma metrópole, solitário à espera de alguém para, quem sabe, um trago de poesia.
            Neste mundo contemporâneo controlado pelas grandes corporações e pela mídia que banaliza a imagem, o consumo e até mesmo as próprias relações humanas, segundo o Octávio Paz[9], cabe à poesia, e ao poeta, se rebelar contra isso:
           
     A palavra é uma ponte mediante a qual o homem tenta superar a distância que o separa da realidade exterior. Mas essa distância faz parte da natureza humana. Para dissolvê-la, o homem tem de renunciar a humanidade, seja regressando ao mundo natural, seja transcendendo as limitações que sua condição lhe impõe. Ambas as tentações, latentes ao longo de toda a história, se apresentam agora com mais exclusividade ao homem moderno. Daí que a poesia contemporânea se mova entre dois pólos: por um lado, é uma profunda afirmação dos valores mágicos; por outro, uma vocação revolucionária. As duas expressam a rebelião do homem contra sua própria condição.

            E é para que cada indivíduo se rebele, sonhe, volte a perceber a magia da vida que é imprescindível a leitura da poesia de Tonho França, um representante de peso da poesia contemporânea do Vale do Paraíba.






[1] Paz, Octavio. O arco e a lira. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac  Naify, 2012, p. 261.
[2] Moíses, Carlos Felipe, Poesia e Utopia: sobre a função social da poesia e do poeta, Escrituras Editora, 2007, p. 91
[3] Idem. p. 99
[4] Idem. p.102
[5] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1991
[6] DANIEL, Cláudio. Uma escritura na zona de sombra. Babel. Revista de poesia, tradução e crítica, nº 3, set.-dez. 2000, p.80.
[7] PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p. 50.
8] Fischer, Ernst. A necessidade da arte, trad. Leandro Konder. – 9. Ed. – Rio de Janeiro: LTC, 2007, p. 35
[9] PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p. 43/44.





Conversas noite à fora



      Noite Nula é último livro do tradutor, crítico e poeta Carlos Felipe Moisés. Já de saída, ou na entrada, o livro se mostra surpreendente, pois o prefácio é uma série de emails trocados entre o autor e uma leitora, a poeta Ana Cecília Carvalho, o posfácio é uma entrevista cedida ao editor e poeta Ricardo Aleixo, além disso o livro ainda apresenta breves comentários do autor sobre os poemas.



       Os poemas de Noite Nula, em sua maioria, são conversas com personalidades do século XX, sebretudo do mundo da música: Leadbelly, Carlos Gardel, John Contrane, Thelonious Monk e Gerry Mulligan, Bessie Smith, Billie Holiday, Charlie Parker, da arte: Kay Sage, da literatura Gertrude Stein, da dança: Isadora Duncan e com o boxeador Jack Dempsey.



       Carlos Felipe Moisés é um grande leitor e crítico de Fernando Pessoa, para o Octávio Paz, poeta e crítico mexicano Fernando Pessoa, o ortônimo, era o símbolo, Ricardo Reis a forma, Alberto Caeiro o nada e Álvaro de Campos a sensação. Podemos encontrar em fragmentos de cada poema de Noite Nula uma faceta do poeta português, com exceção a Ricardo Reis e, talvez, um pouco menos Álvaro de Campos, pois os poemas de Noite Nula não são tão sensoriais e se mostram bastante narrativos, veja um exemplo em Leadbelly:


Aos dezoito emprenhei a filha do vizinho.


Viola nas costas, faca e revólver na cinta,


Uísque para espantar o banzo, dei no pé


: perambular por descampados do sul.


      Alguns poemas são despregados dessa narrativa linear, um exemplo é Ária Alada, com epígrafe de Fernando Pessoa, aqui a narratividade é empregada de forma poética e melodiosa:


A noite se alastra pelos becos.


A ilusão do dia: um queixume


a rolar nas pedras da calçada, na copa


do arvoredo em frente, nos telhados


distantes,


(...)


é só o gorjeio de uma flauta


: ária alada a se alestrar


pelos becos


noite & contra-noite

rio de luz & sombra


      Em Breviário o simbolismo de Fernando Pessoa (ele mesmo), segundo a observação de Paz, se faz presente:


Outrora a noite bem alto voava e erguia


Sobre o mundo a imponência alada


De sua majestosa sinfonia.


Hoje


arrasta à roda do meus sapatos esse


par de asas murchas (esperança nenhuma)


a bicar a cinza melodiosa dos dias.



     O poema Noite Nula é um dos mais significativos do livro. É um poema longo, como a maioria, prega um niilismo aos moldes de Alberto Caeiro (a noite agora cerra sobre a cidade/ as suas asas definitivas & então/ sim, sei:/ essa noite não é nada) dividido em 4 partes, com ótimas imagens poéticas (a noite, matilha de sombras, óleo espesso/ a escorrer da candura dos arranhas-céus), a segunda parte é quase um poema metalinguístico (O coração metrificado pára(/heroico ou sáfico é tudo igual)) e a mistura do tom coloquial e solene (exala o seu odor inebriante &/El-rei já goza o primeiro dos mil/orgasmos que a noite adentro terá.) tudo também é recorrente nas outras duas partes do poema, a terceira e a quarta.


      O ótimo poema Kay Sage é a última peça do livro, foge do tema da noite e apresenta uma linguagem mais concisa:



Esta cidade sou eu.


Posso


esperar, para sempre,


o pântano a subir


ou o céu


a escorrer pelo andaimes


desta cidade: sou eu (qualquer


além nenhum)


esta


cidade


a esperar


: ontem hoje sempre.


Amanhã é nunca.


          Noite Nula é um passeio noturno pela memória do século XX, ao leitor cabe acompanhar e observar a boa prosa de Carlos Felipe Moisés com seus personagens preferidos, apesar de ser um livro de poesia.





Da alta e baixa linguagem da qual se mune o poeta para um cantar mais democrático


            Frederico Barbosa, poeta pernambucano radicado em São Paulo, é um dos nomes mais fortes da poesia nacional, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti: Nada feito Nada, 1993 e Brasibraseiro 2004, em parceria com Antonio Risério. É o próprio poeta que afirma, na orelha do livro Contracorrente de 2000, que sua busca centra-se na invenção e no rigor que parte da poesia de João Cabral de Melo Neto e da poesia Concreta.
            Talvez o que definiria melhor Frederico Barbosa é sua luta e prol da poesia, como diretor da Casas das Rosas, Fred entra em contato com todos as possibilidades de poesia contemporânea, não só a poesia inventiva pela qual é reverenciado pelos maiores críticos do país, mas também aquela poesia de cunho popular, regional ou, como preferem alguns, a poesia periférica, — produzida nas periferias de São Paulo.
            Fred registra bem seu tempo, por meio de uma rica elaboração da linguagem poética. Esse constructo linguístico/poético, abala seu tempo, porém sua poesia é abalada pela linguagem de seu tempo e talvez seja esse o verdadeiro mérito de sua obra. O poeta e crítico Octávio Paz, em O arco e a lira, afirma:
O poeta, por sua vez, atua de baixo para cima da linguagem de sua comunidade à do poema. Em seguida a obra volta às suas fontes e se torna objeto de comunhão A relação entre poeta e seu povo é orgânica e espontânea
            É, justamente, a linguagem que atua de baixo para cima um dos pontos mais interessantes e instigantes como é percebido em Contracorrente, livro de 2000, observe o poema:



POESIA E PORRADA





para José De Paula Ramos Jr.










De tanto tomar porrada
pedrada cuspe tapão

engolir sapos
cobras e lagartos

mascar rancor

saco roto de pancadas

eu
insulto
calei.

E petrifiquei
recusa muda 
feito coisa só res-
saca só sono só res-
sentimento.

Minha poesia nada rala
que de ira se irrigava
secou
esquecida e rara.

Só lia e nada 
impactava.

Tédio recato tédio
nos versos alheios.
E eu repetia falas sagradas

estante estéril
mote metralha

no esforço 
de relembrar 
o inverso do bocejo:

“Estou farto do lirismo comedido”
“Fera para a beleza disso”
“Te escrevo fezes”
“Mas ainda não é poesia.”

E agora que impera o chato
o gesto eco
o versinho pré-parnaso
o correto dito certo

pé no gesso 
regrado
pé no saco

dispenso a pose polida
e disparo petardos

incertas pedras
chutes feridas 
de pé descalço

arrisco sem meta
ou metro estimado.

Eu
insulto
revolto o gesto.

Solto minha rocha em versos
pedras-de-raio
estrelas cadentes
chuva de meteoros indigestos.

Porradas, vinde: voltei.


            Neste poema impera a linguagem coloquial, popular, mais prosaica (porrada/pedrada cuspe tapão), em um tom mais franco e direto, por vezes se valendo de um léxico mais material (pedra, rocha, meteoros), dessa forma sua linguagem poética deixa o Olimpo da alta literatura, que por vezes foi cenário ou referência em sua obra precedente e assume uma postura mais urbana, mais precisamente: mundana, por valer-se de gírias ou de linguagem tribal, veja mais um exemplo, nos versos de outro poema de Contracorrente: Paulistana de verão:


beleza ZL




descolada



fingida pedra



desce da penha



retrô querendo-se moderna




            É com esse “rebaixamento no tom” (Beleza ZL, retrô querendo-se moderna) também encontrado no poema Poesia e porrada além de outros do livro, que o Eu - lírico se municia para um contundente protesto contra sua própria produção poética (Minha poesia nada rala/que de ira se irrigava/secou/esquecida e rara) como também contra outras produções (Tédio recato tédio/nos versos alheios./E eu repetia falas sagradas/estante estéril/mote metralha) valendo-se de um discurso confessional esses versos mostram o quanto a linguagem é cara ao Eu – lírico, também ao poeta, e como a necessidade de comunicação mais ampla coloca em xeque, não a forma experimental e criativa, mas o discurso que se utiliza de uma linguagem, por vezes, mais rebuscada, mas principalmente dos referenciais da alta cultura, por meio da citação de autores e obras clássicas da literatura, música, cinema ou arte plástica, como exemplo uma estrofe do poema: Certa biblioteca pessoal de 1978, do livro Nada feito nada:


no mais nemirovich 



gaivotas no cerejal 



como queria tchecov 



maiakóvski soprando 



gorki lembrando 



estudem, estudem! 

dostoievski ou tolstoi? 

tanto faz 

tanto fez que 

stanislavski 

rouxinol seria cotovia?
mesmo mero, melhor homero 

(tolstoi xingando) 

morreu romeu e 

marlowe comeu 

manuscritos 

na tumba.



            O uso da linguagem e tom mais formal e elevado que pôs a poesia de Frederico Barbosa em destaque no panteão da poesia contemporânea, porém nos versos de Poesia e porrada o eu - lírico volta-se reflexivamente para esse passado (dispenso a pose polida/e disparo petardos/incertas pedras/chutes feridas/de pé descalço) operando uma transformação em sua produção poética, não só na linguagem, mas também no tom, por conseqüência, o Eu - lírico renova-se, (Solto minha rocha em versos/pedras-de-raio/estrelas cadentes/chuva de meteoros indigestos./Porradas, vinde: voltei).
            A poesia de Contracorrente continua sendo inventiva e contundente, porém ao se munir de uma linguagem mais coloquial, um léxico mais material, e um tom próximo do popular, Frederico Barbosa dilui o repertório da alta cultura em seus versos, sem precisar fazer referências explícitas, tornando, assim, seu texto muito mais rico significativamente, já em poemas com muitas referências e/ou citações acabam por ser exclusivos aos que conseguem interpretar essas “senhas”, pois quando o leitor decifra a intertextualidade implícita, enriquece sua leitura e interpretação, porém sem negar um sentido mais superficial para o leitor que ignora essa intertextualidade. Em suma, Fred utiliza-se da linguagem coloquial a fim de promover a ampliação da carga significativa de seus poemas, oferecendo poesia de alto nível que produz como exercício democrático.
            O rebaixamento do tom e da linguagem poética para atingir um público mais amplo, entre inúmeros outros aspectos da obra de Frederico Barbosa, é um dos principais motivos de Contracorrente atingir e emocionar, como diria Gil, a gregos e baianos.


As várias artes poéticas contemporâneas

Discorrer sobre a produção poética contemporânea não é uma tarefa fácil. Dessa maneira, discorrer sobre a produção poética contemporânea, sem incorrer em erro, de qualquer espécie, é uma tarefa árdua.
É quase impossível tentar “mapear” a poética contemporânea. Primeiro, devido ao grande número de poetas brasileiros, que, sobretudo após a internet, torna, a cada dia, a tarefa mais difícil; no entanto, alguns poetas ganham destaque nos meios de comunicação, na crítica ou na própria internet. Segundo, porque é extremamente difícil fazer uma análise de qualquer estrato do tempo em que estamos inseridos.
Neste texto, tentarei apresentar os diversos tipos de poéticas existentes, mas não citarei nenhum poeta como representante, porque cada um carrega uma enorme palheta de diferentes influências, pois não é o objetivo do texto criar rótulos literários para a poesia contemporânea. Assim, prefiro fazer uma breve análise das várias tendências poéticas ou, como gostam alguns críticos, famílias poéticas, uma vez que essa separação, ou aglutinação de poeticidades, pode ser, no mínimo, enganosa, pois são raros os poetas que se mantêm em apenas um estilo de texto.
Com isso, sem muitas idas e vindas, chamaremos de contemporânea toda a produção de poetas que publicaram após os anos de 1945 do século passado. Dessa forma, antes de apresentar esses estilos ou famílias poéticas, vejamos algumas definições do mais cultuado e conceituado crítico brasileiro, Antonio Cândido, que, em seu livro O estudo analítico do poema, define o emprego da palavra como imagem ou símbolo.

A base de toda imagem, metáfora, alegoria ou símbolo é a analogia, isto é, a semelhança entre coisas diferentes. E aqui encontramos, no plano dos significados, um problema que já encontráramos no plano das sonoridades como sinestesia: o da correspondência. Com base na possibilidade de estabelecer analogias o poeta cria a sua linguagem, oscilando entre a afirmação direta e o símbolo hermético. Raramente o poema é feito apenas com um ou outro destes ingredientes polares, e na sequência dos versos somos capazes de notar a gradação que os separa. Muitas vezes, o elemento simbólico não está na peculiaridade das palavras, ou na sequência de imagens, mas no efeito final do poema tomado em bloco. E em tudo observamos a capacidade peculiar de sentir e manipular palavras. (Cândido, 1993).



         Assim, tendo como base a figuração das palavras, Antonio Cândido aponta três tipos de poemas. Para o primeiro tipo, o poeta usa todas as palavras em seu sentido próprio, mas a combinação dessas palavras cria um conceito figurado.


Pode, mesmo, dar-se o caso de o poeta não usar uma só palavra figurada, mas combinar de tal modo as palavras em sentido próprio, que elas se ordenam como um conceito figurado, uma realidade diversa do que as palavras exprimem em sentido próprio. [...] O sentido geral do poema é figurado, talvez um símbolo, enquanto o sentido de cada palavra é próprio. (Cândido, 1993).


            O segundo tipo, é o que traz a maioria das palavras em sentido figurado, sendo usadas como imagens ou símbolos. Entretanto, mesmo as que estão em seu sentido próprio ganham valor de imagens simbólicas. Assim, todos esses símbolos são partes de um todo no poema.

Outro caso é o dos poemas em que praticamente todas as palavras são figuradas, embora umas se apresentem como tais, outras não. São usadas de modo que, mesmo sem parecerem imagens, sofrem uma alteração de significado, que vai resultar na alteração geral mencionada nos casos anteriores. […] Os demais apresentam realidades não figuradas, mas próprias. No entanto, a direção de mistério que orienta o poema faz com que cada palavra pareça figurada. O sentido figurado geral já esta prefigurado nestas palavras usadas como imagens sem o serem propriamente, pois todas são provavelmente símbolos. (Cândido, 1993).


           Logo, Cândido define a alegoria desta maneira:

[...] alegoria, isto é, num tipo de linguagem figurada que, por meio da sequência das imagens, ou dos conceitos, resulta numa distorção geral do sentido. (Cândido, 1993).




        Além desses dois tipos de poemas, Antonio Cândido chama a atenção para um terceiro: aquele que traz em cada palavra, ou verso, um sentido figurado, mas o poema, como um todo, é claro e explícito.



[...] temos um processo comum na poesia, que consiste em organizar logicamente, racionalmente, um pensamento poético que em si é ilógico, pois está baseado na alteração dos significados normais das palavras. Resulta ao mesmo tempo, no fim do poema, um sentido geral claro e expressivo, e um sentido figurado em cada parte, ambos colaborando para o efeito poético total. (Cândido, 1993).

Dessa maneira, nem é apenas de metáforas que se faz um poema. Com isso, Ezra Pound (1934-1972) indica três procedimentos básicos para sua criação:
1)    Melopeia: musicalidade dos versos a partir dos recursos sonoros e fonéticos, como o ritmo do poema, a aliteração, assonância, entre outros;
2)    Fanopeia: a criação de imagens por meio das palavras dos versos; é o apelo à imaginação visual do leitor;
3)    Logopoeia: é a criação da mensagem do poema; recursos linguísticos intelectuais ou emocionais.
Portanto, para a produção poética requer-se a manipulação da linguagem, e é por meio de recursos linguísticos do significante (palavra) e do significado (ideia) que o poeta cria, ou recria, o seu mundo, dialogando com ele. Assim, Décio Pignatari afirma que o poema é um ser de linguagem.
O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e recriando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo, O poeta é radical (do latim, radix, radicis = raiz): ele trabalha as raízes da linguagem. Com isso, o mundo da linguagem e a linguagem do mundo ganham troncos, ramos, flores e frutos. É por isso que um poema parece falar de tudo e de nada, ao mesmo tempo. É por isso que um (bom) poema não se esgota: ele cria modelos de sensibilidade. É por isso que um poema, sendo um ser concreto de linguagem, parece o mais abstrato dos seres. É por isso que um poema é criação pura — por mais impura que seja. É como uma pessoa, ou como a vida: por melhor que você a explique, a explicação nunca pode substituí-la. É como uma pessoa que diz sempre que quer ser compreendida. Mas o que ela quer mesmo é ser amada. (Pignatari, 2004).



      Entretanto, esse diálogo nem sempre é harmônico. Sobre isso, Roman Jakobson afirma:


A poesia vive em conflito com o tempo e o pensamento e manifesta essa tensão na linguagem, construção estética que dialoga com a história, pessoal e coletiva, ao mesmo tempo em que afirma sua própria identidade como artefato artístico [...] (Toledo, 1971).

Dessa forma, é essa construção estética que interessa ao nosso estudo. Se a poesia vive em conflito com tempo e o pensamento, como afirma Jakobson, de que forma a poesia brasileira sobrevive em uma sociedade capitalista de consumo? Sociedade esta que torna o homem anônimo, mais um em uma grande massa de manobra do sistema de capital. E esse homem está sem voz. A poesia tenta restaurar, nesse homem, a sua individualidade. Talvez seja por isso o visível aumento das publicações de poesia, por pequenas ou médias editoras; edições financiadas pelo próprio autor; suplementos; periódicos; e até mesmo publicações em vários formatos nos meios virtuais.
Sobre essa produção poética contemporânea, o crítico Manuel da Costa Pinto afirma haver duas vertentes:
Existem duas ideias sobre a poesia brasileira que são consensuais, a ponto de terem virado lugares-comuns. A primeira diz que um de seus traços dominantes é o diálogo cerrado com a tradição. Mas não qualquer tradição. O marco zero, por assim dizer, seria a poesia que emergiu com a Semana de Arte Moderna de 22. A segunda ideia, decorrente da primeira, é que essa linhagem modernista se bifurca em dois eixos principais: uma vertente mais lírica, subjetiva, articulada em torno de Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; e outra mais objetiva, experimental, formalista, representada por Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto e a poesia concreta. (Pinto, 2004).

O jornalista e poeta Rodrigo Garcia Lopes, em seu artigo “Muito além da academídia: Poesia brasileira hoje”, publicado na revista Coyote, fez severas críticas aos critérios adotados por Manuel da Costa Pinto:
A presença de uma palavra como "consenso", logo na segunda linha de um livro que promete mostrar "a diversidade da nossa história poética e ficcional" (p. 10) é no mínimo perigosa. Como vimos com Noam Chomsky, o conceito de consenso, nas sociedades democráticas, é manufaturado, escamoteado, quase sempre para favorecer instituições (fundações, universidades, imprensa, academias, editoras) e os interesses dos grupos dominantes e hegemônicos da sociedade. A fabricação desse consenso se dá todos os dias, e a mídia é quem cuida disso, através de fórmulas prontas e muitas vezes subliminares. É a lógica do mercado interferindo na mente dos cidadãos. Ideias não são consensuais. São um campo de batalha. A poesia não pode ser consensual, pois sua prática, idealmente, é ser não conformista. (Lopes, 2005).



     Mais adiante, o doutor em literatura, Fábio Cavalcante de Andrade, estabelece quatro tendências:


1. Poesia Marginal, surgida como resposta direta ao clima opressivo do regime militar, buscando espontaneidade e o retratismo do cotidiano político;
2. Poesia Visual, herdeira e continuadora de determinados procedimentos do concretismo, bem como de outras vanguardas;
3. Poesia de Renovação das formas tradicionais e do cotidiano, indicando obliquamente uma forte presença de poéticas como as de Drummond e Manuel Bandeira, mas onde também se pode encontrar certo classicismo;
4. Poesia Hermética, acrescentando ao cânone brasileiro uma série de poetas difíceis, obscuros, apresentando ainda grande parentesco com valores da alta modernidade. (Andrade, 2008).

Portanto, é sobre essas quatro tendências que tentarei discorrer, mesmo sabendo que toda e qualquer classificação é arbitrária e provisória, porém necessária para uma tentativa de mapear as várias linhas ou estilos da poética contemporânea.

Poesia Marginal
A poética denominada Marginal, também conhecida como geração mimeógrafo, nasceu nas décadas de 1970 e 1980, anos da ditadura militar. É uma poética engajada, rebelde e revolucionária, sem preocupações estéticas e de acentuada informalidade. Essa poética também é marcada pelos recortes do cotidiano. Heloísa Buarque de Hollanda, na antologia Esses Poetas, primeiro registro dessa poética, acaba inserindo a poética surrealista paulistana pautada pelo registro espontâneo às experiências com a escrita automática. Os poetas marginais participavam de todo o processo do livro, da criação, manufatura e venda. A este respeito, no prefácio da coletânea da segunda edição, Heloísa escreve:

Frente ao bloqueio sistemático das editoras, um circuito paralelo de produção e distribuição independente vai se formando e conquistando um público jovem que não se confunde com o antigo leitor de poesia. Planejadas ou realizadas em colaboração direta com o autor, as edições apresentam uma face charmosa, afetiva e, portanto, particularmente funcional. Por outro lado, a participação do autor nas diversas etapas da produção e distribuição do livro determina, sem dúvida, um produto gráfico integrado, de imagem pessoalizada, o que sugere e ativa uma situação mais próxima do diálogo do que a oferecida comumente na relação de compra e venda, tal como se realiza no âmbito editorial. A esse propósito, convém lembrar a tão frequente presença do autor no ato da venda o que de certa forma recupera para a literatura o sentido de relação humana. (Hollanda, 1998).

Poesia Visual
Essa poética é herdeira da vanguarda concretista, mais principalmente do poeta francês Mallarmé, e próxima das artes plásticas e dos meios tecnológicos. Faz a união entre a cultura pop, de massa, com a publicidade, a música, sobretudo o videoclipe. Poética que utiliza a escrita como elementos gráficos, além de outros recursos visuais, como as colagens, os grafismos e os diferentes alfabetos. Segundo o crítico e poeta Claudio Daniel, em seu artigo, “Pensando a Poesia Brasileira em Cinco Atos”, publicado na revista paranaense Coyote, é uma linguagem de futuro promissor, devido ao avanço tecnológico.
É possível supor que, dentro de uma ou duas décadas, as novas gerações possam unir o conhecimento dos livros com o manejo tecnológico, tendo condições ideais para desenvolverem poemas interativos, aprofundando as propostas das vanguardas históricas. Será essa, porém, a única via para a experimentação poética? Ou é possível prosseguir com o ideal de invenção no poema-texto? (Daniel, 2005).

Poesia de Renovação das formas tradicionais e do cotidiano
Conforme descrito por Manuel da Costa Pinto, essa poesia está ligada ao cânone modernista, principalmente a dupla Bandeira e Drummond; é de uma vertente mais lírica e subjetiva da experiência da vida comum e cotidiana, também marcada por uma forte intertextualidade, e apresenta várias formas: a fixa (sonetos, odes etc.) ou a livre. É conhecida por geração 60, mesmo que alguns de seus representantes tenham publicado antes ou depois. Sobre essa vertente, Fábio Cavalcante afirma:
Na geração de 60 é possível reconhecê-los, aqueles que cultivaram o lirismo, através de formas fixas ou livres, ressaltando ou ocultando o sujeito lírico, e mantendo a experiência humana como fonte fundamental de suas inquietações e órbita incontornável do poema. Do ponto de vista técnico, apresentam diversidade e facilidade de locomoção entre registros formais diferentes. Do soneto a uma canção, dos versos livres à criação de novas formas fixas. Em todos, porém, sente-se a proximidade de uma experiência vital de vida, que não desaparece no formalismo de vanguarda nem na facilidade da expressão espontânea. Nem o fetiche da inovação nem a suposta liberdade do engajamento. São poetas responsáveis pela manutenção, ao longo de três décadas, do terreno literário, protegendo-o contra a infertilidade na qual muitos marginais caíram, e contra as experiências malogradas da vanguarda mais radical. (Andrade, 2008).


Poesia Hermética
Essa poética é chamada de hermética por apresentar uma linguagem elaborada, sem articulação léxica, por vezes obscura ou enigmática. Com isso, Fábio Cavalcante afirma:
O Hermetismo poético é senão a principal, uma das principais formas da expressividade moderna, uma espécie de platonismo às avessas: quanto mais distante do retratismo, da mera cópia da realidade, mais verdadeiro aos olhos dos poetas. (Andrade, 2008).


      Essa poética ganha força a partir dos anos 1990. É herdeira de várias fases do Modernismo, principalmente das mais radicais e experimentais, como a poesia concreta; dos poetas João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes; dos poetas marginais; e também das culturas primitivas, orientais, bem como da cultura pop. Claudio Daniel, em seu artigo “Uma escritura na zona de sombra”, afirma:
A diversidade de linhas de pesquisa e processos de criação, signo dinâmico da nova poesia, requer não o estático, mas o mutável, sem a hegemonia de uma única concepção, e aponta ainda em outras direções luminosas. O tempo exige poéticas em mandala, arco-íris, cauda de pavão, e desencasula formas e cores como um tapete marroquino [...].
Os poetas atuais não comungam de um mesmo credo, mas têm como princípio básico a noção do poema como um elaborado artefato de linguagem — e não apenas isso. O meticuloso artesanato das palavras soma-se à investigação de novos repertórios simbólicos e culturais do Ocidente e do Oriente, da escritura e de outros códigos de expressão, de um passado remoto ou da atualidade — como resistência. (Daniel, 2000).


O poeta e ensaísta continua sua afirmação e, em seu artigo “Geração 90: uma pluralidade de poéticas possíveis”, divide essa poética em quatro grupos. São eles:
Neobarroco – A poética da “pérola irregular”
De elevado grau de elaboração de linguagem algumas similaridades formais, como o uso da metáfora, a riqueza imagética, as referências à pintura, à fotografia e ao cinema, o vocabulário erudito e a sintaxe fraturada, que não elimina o discurso, mas o redimensiona de maneira inventiva. São poemas que se afastam da espacialização gráfica e da fragmentação léxica do concretismo e também da linguagem coloquial e prosaica da “geração mimeógrafo”, aproximando-se de uma construção mais hermética ou barroquizante que exige do leitor uma cumplicidade de repertório e uma não menos árdua estratégia de leitura. O verso não é abolido, mas reconstruído para além da camisa-de-força da métrica e das facilidades oferecidas pelo verso livre, abrindo um campo de experimentação para a poesia enquanto elaboração verbal.

Minimalismo – A poética da arquitetura concentrada
A construção poética concisa, fragmentária, que condensa os recursos da linguagem e se choca com violência contra a sintaxe discursiva e a própria noção de verso define a tendência minimalista. O principal recurso estilístico utilizado por essa tendência é a metonímia, aliada à elipse, embora apareçam também metáforas de sabor surrealizante, que derivam dos tender buttons de Gertrude Stein. A esse respeito, Manuel da Costa Pinto fala em “justaposição de frases nominais, refratárias às correlações lógicas”, e ainda de uma “língua desconexa”.

A poética do formalismo informal
Incorpora elementos implícitos do cinema em suas próprias estruturas — cortes, fusões, sequências, closes, flashbacks, silêncios, ruídos (idem). A influência do cinema, da música popular, da filosofia oriental, da mitologia beat e das histórias em quadrinhos é visível. São poetas que mesclam referências cultas às linguagens da comunicação de massa, explorando também o imaginário e as formas estéticas de culturas não ocidentais, como os mitos indígenas e a poesia chinesa e japonesa. O resultado desse sincretismo é uma poesia de dicção coloquial, melódica e fluente, com o uso eventual de rimas, aliterações e do verso longo, próximo à prosa, mas sem desprezar o uso espacial das linhas na página. A imagem é um elemento importante para a articulação do seu pensamento, com o uso de closes e cortes metonímicos para a descrição de cenários da natureza.






Poesia Hermética
Essa poética é chamada de hermética por apresentar uma linguagem elaborada, sem articulação léxica, por vezes obscura ou enigmática. Com isso, Fábio Cavalcante afirma:

O Hermetismo poético é senão a principal, uma das principais formas da expressividade moderna, uma espécie de platonismo às avessas: quanto mais distante do retratismo, da mera cópia da realidade, mais verdadeiro aos olhos dos poetas. (Andrade, 2008).









       Portanto, esta análise tem como propósito apresentar algumas das possibilidades poéticas contemporâneas, porém sabendo de sua pluralidade criativa, e que essas possibilidades são e estão vivas, crescendo, metamorfoseando e frutificando-se, impossível de alocar-se em prateleiras estáticas reducionistas.



 Referências


ABAURRE, Maria Luiza Marques. “Como ler um poema?” In: ABAURRE, Maria Luiza Marques; PONTARA, Marcela.  Literatura Brasileira: tempos, leitores e leitura. São Paulo: Moderna, 2006.

ALEXANDRE, Alberto. Tentativa de Pôr Ordem na Casa. MASSI, Augusto (org.). Artes e Ofícios da Poesia. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1991, pp. 24-25.

ANDRADE, Fábio Cavalcante. A transparência impossível: lírica e hermetismo na poesia brasileira atual / Fábio Cavalcante de Andrade. – Recife: O Autor, 2008. 331 folhas: ilustrado, quadro.

ANTUNES, Arnaldo. “Prefácio para o livro ‘Não’, de Augusto de Campos” In: CAMPOS, Augusto de. Não. São Paulo: Perspectiva.

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A poesia contemporânea que transcende o formato da rima



Introdução:

Do que é feito um bom poema? Ferreira Gullar diz, em seu poema Barulho, Todo poema é feito de ar/ apenas(...) O poema/é sem matéria palpável/tudo/o que há nele/é barulho/quando rumoreja/ao sopro da leitura. Mário de Andrade, no prefácio de Paulicéia desvairada, diz: (...) versos não se escrevem para a leitura dos olhos mudos. Versos cantam-se. Urram-se. Choram-se. Seriam os poemas feitos de ar? Seriam escritos para se cantar? Nesses trechos os poetas valorizam o aspecto sonoro dos poemas.
Além da sonoridade, existem outros aspectos importantes que trazem para o poema o trabalho artístico com as palavras, trabalho este que consiste em carregá-las de significados, ir além do seu uso comum, corriqueiro, ou seja, valorizar o sentido conotativo das palavras, exemplo disso são as figuras de palavras, como a metáfora e a metonímia, as figuras de sintaxe: elipse, pleonasmo e outros, e as figuras de pensamento: como a antítese, paradoxo, hipérbole, eufemismo, entre outras.
Há também o aspecto ideológico, a mensagem, todo poema nasce por ter uma mensagem, algo a ser dito, o tema, é verdade que essa mensagem não se dá por meio de um discurso objetivo, mas pelo discurso subjetivo e é aí que está a beleza de um poema. Tenho para mim que o poema é a tentativa de se eternizar um instante, uma verdade, um olhar; de nos fazer perceber, por meio de um determinado ponto de vista, o que não foi percebido. Um bom exemplo é Mário Quintana, um mestre em subverter o olhar cotidiano, que transformou uma informação inútil: a descoberta do açúcar de beterraba por Margraff, na tentativa do descobridor em sobreviver ao tempo, transformando-se em ideia fixa.  Além dele, há outros: Adélia Prado que olha um leão e vê Deus , Manoel de Barros que consegue ver a cor de um passarinho, entre outros tantos.    
Se um poema tiver uma ótima mensagem, boas figuras de linguagem, mas não tiver musicalidade, corre o risco de não ser considerado um bom poema. Décio Pignatari, em O que é comunicação poética, afirma que a poesia está mais para a música do que para a literatura. No poema encontramos muitos atributos da música, como o ritmo e a melodia.
O ritmo de um poema se dá pela sucessão de acentos ora fortes ora fracos, longos ou breves, um ótimo exemplo de um poema com ritmo bem marcado é I Juca Pirama de Gonçalves Dias:


No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos - cobertos de flores,
 
Alteiam-se os tetos d’altiva nação; 
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, 
Temíveis na guerra, que em densas coortes 
Assombram das matas a imensa extensão.

A simples leitura desses versos iniciais nos traz a sensação de estarmos cantando um RAP, para aquele que tem um ouvido mais atento pode até “ouvir” a batida de uma bateria, ou pelo menos da caixa desta.
A poesia contemporânea, sobretudo aquela de versos livres, não apresenta um ritmo tão marcado, possui um ritmo próximo da oralidade, da fala cotidiana. Também não apresenta regularidade de metrificação. A métrica é a quantidade de sílabas poéticas de um verso, no exemplo de Gonçalves Dias todos os versos têm dez sílabas. 
Uma coisa que sempre me incomodou, como poeta e como professor, é ouvir que determinado texto não é um poema por não apresentar rima. A rima, bem como a metrificação, foi, ao longo dos anos, muito usada nos poemas brasileiros e portugueses, mas a ausência da rima não significa que um determinado texto não é um poema.


Décio Pignatari diz ao espirante a poeta usar o ouvido:

(...) Sinta as pulsações. Leia poemas em voz alta. Poemas seus. E de outros. Grave no gravador. Ouça. Ouça. Torne a gravar. Ouça. Compare. Se precisar de mais de uma voz, chame os amigos.

Além da rima existem inúmeros recursos sonoros que um poeta pode se valer para a criação de um poema. Veja o poema Onda de Manuel Bandeira:


A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

Repare que a vogal (A), bem como os dígrafos vocálicos (AN, IN e ON) se repetem, com isso trazem uma onda sonora para o poema. Essa repetição de vogais é chamada de Assonância, é um recurso muito utilizado, pois agrega ao poema melodia. Perceba agora como a melodia do poema de Bandeira lembra barulho de um mar calmo. Agora, veja o exemplo de Clebber Bianchi, nas primeiras estrofes de seu belo poema Andorinha.
Uma andorinha pousou na minha janela.
Uma andorinha, 
apenas uma. 
Deu um pio e voou. 

Da minha janela, 
observo o brilho das estrelas elétricas no topo dos prédios 

Aqui, não há cigarras cantando, 
nem beija-flores beijando. 
Nada aqui é verde. 
Nada. 
A não ser o musgo dos casarões coloniais não restaurados (...) 


Veja como é melódico esse poema, graças a repetição das vogais (A, O e U), o mais interessante que essa melodia intensifica, no poema, a solidão do eu-poético.

Agora veja a letra da canção Tristes trópicos de Itamar Assumpção:

O trópico tropica
Emaranhado no trambique
A treta frutifica
E tritura todo o pique
A trapaça trina e troa
E extrapola cada dique
O tratado é intrincado
Destratado é truque chique
O grito atravancado
Tranca até que eu petrifique
Tristes gregos e troianos
Desbragado piquenique

Verifique que agora o que se repete são os fonemas consonantais (TR, T, R, GR, BR, P, C e QU) que fazem com que tenhamos a ideia de alguém tropeçando, ou pelo menos andando de forma irregular. Para esse recurso dá-se o nome de Aliteração. Veja o poema Canto III do mestre Tonho França:

Meus olhos guardam os segredos da morte
A vi em sua plenitude
Com seios claros em ágata e flores
dentes de sabre e línguas de fogo
nos lábios o hálito cítrico do veneno dos deuses.
A vi em sua plenitude
olhos em tons de universo, sacro e profano
galgando ao vento com cascos de corsa
braços maiores que demônios e anjos
recriando a vida
em seu útero infinito
divinamente humano

Perceba como a repetição do fonema (S) dá ao poema um tom de mistério, como se fosse uma canção ritualística e perceba, também, como a ausência desse fonema nos últimos versos clareia e valoriza a vida dentro do útero. O som do fonema (S) age como uma cortina que aos poucos revela esse útero divinamente humano.  

Outro recurso sonoro bastante interessante é a Paronomásia, que consiste em aproximar palavras semelhantes no som, mas com significação diferente. Veja o poema Dessubstancialização, de Erick Magalhães:

A oca, outrora oca

hoje é oca.

Veja que o poema está centrado na diferença de significados da palavra OCA, que como substantivo,  segundo o Houaiss Digital é:

1.       construção de madeira, entretecida e coberta por fibras vegetais, ger. de planta circular, us. pelos indígenas do Brasil como moradia de uma ou mais famílias

ou como adjetivo OCA , o Houaiss não apresenta esse vocábulo, porém apresenta o verbo OCAR.

2.      tornar oco, abrir uma cavidade; escavar, esvaziar



Um recurso sonoro usado e abusado por mim, em meus poemas, foi o eco, veja o poema Sempre em frente! :

Por que esta aí parado?
Estanc
ado.

Vamos lev
ante a cabeça e ande. Ande,

Pra frente, sempre em frente
Não corra, ande dev
agar
O importante é a
ndar.

Os obstáculos ficaram lá trás
Se você não os
viu.
tropeç
ou
ca
iu.

Tudo bem! O importante é não titu
bear
Ande, sempre em frente sem fraqu
ejar

Está desp
ido?
De espír
ito?
Fer
ido?
Cale o gem
ido !

E vá sempre em frente
De cabeça ergu
ida.
Ponha gaze e mercúrio pra esconder a fer
ida
da v
ida.

Não se apoie no outros, você é jovem e forte
Muito forte, muito
Não precisa da sorte

Abandone o buraco
Deixe-o pra um verdadeiro
Fraco

Você não é
Nunca foi
Nem será

É só ter fé
Em você e em Deus

Siga em fr
ente, sempre em frente
Como um bravo, como um guerreiro
Vai levar golpes, mas agu
ente

Você é brasileiro, é resist
ente
Feito a base de aguard
ente
Para os outros ...

Infelizm
ente!

            O Eco se difere da rima, pois não ocorre necessariamente no final dos versos, ou pelo menos na mesma casa rítmica, o eco pode ocorrer no interior de um verso. Minha intenção foi retratar um monólogo interior e a desolação do eu-poético  é tão grande que suas palavras de incentivo,  para ele mesmo,  batem e voltam.    

Do que é feito um poema? De uma série de recursos sonoros, como vimos, recursos linguísticos e estilísticos, sem mencionar os recursos visuais.  A rima é apenas um dos recursos, na verdade um ótimo recurso, mas, diferente do querem alguns, não o único. 







Prefácio para Apologia do Inesperável



É o poeta Lucas Israel Rocha que em Idas e vindas diz:
A poesia é também um diálogo com o inconsciente.
Ao lermos seu Apologia do Inesperável estamos conhecendo o inconsciente do poeta, que, por mais que se diga sonhador em alguns versos, na verdade, está impregnado da realidade em sua volta. Talvez por não conseguir despojar os olhos de um sujeito histórico do professor de história que se faz seu ser.
Sempre que li seus poemas achei-os mais próximos de João Cabral de Melo Neto a Mário Quintana, poeta admirado pelo autor, como podemos perceber em algumas epígrafes pelo livro, creio que seja porque Lucas também tenha o olhar de um nordestino para um aqui e agora opressor e geralmente amargo.
João Cabral em uma entrevista afirmou que foi em Alguma Poesia de Drummond que ele percebeu que a prosa e a ironia cabiam dentro da poesia, e é por isso que eu, em minha cabeça, achava que os poemas de Lucas estavam mais próximos de Cabral a Quintana. Poemas cheios de prosa, ironia, ora inconformismo e até mesmo revolta que se não fosse pelo verso, pelo ritmo ou pelas rimas seriam as melhores crônicas de nosso tempo. Mas isso não quer dizer que os poemas de Lucas Israel Rocha não trazem o apuro estético e formal, quem tiver dúvidas que leia: Perguntas, Tudo é movimento, Poema anárquico ou ExplicaÇÃO.
            Para ser justo com as convicções poéticas e sociais de Lucas não posso me negar a comentar sua maior influência, a meu ver, que permeia cada poema, cada verso dessa antologia apológica: Bertold Brecht. Materialista como o poeta e dramaturgo alemão, mas ao contrário dele, Lucas não é pessimista, é esperançoso. E tal como Brecht, Lucas utiliza-se da forma e do discurso poético para denunciar um sistema impessoal, impiedoso e inumano que nos cerca.
Lucas Israel Rocha se mune de toda angústia, toda frustração de um genuíno revolucionário solitário e perdido em meio a um Capitalismo Predador que reina tirânico e absoluto, se alimentando de credos, sonhos e almas, ao passo que poda toda e qualquer esperança e inteligência.
Apesar de inúmeros críticos e poetas pregarem que a poesia não serve para nada, Lucas Israel Rocha acerta neles e em nós sua Apologia repleta de cantos e gritos, que como tudo que é contra o Sistema, em tempo de vozes uníssonas, será sempre Inesperável.







Texto de apresentação do livro: Dilacerações


A poesia nos possibilita, entre outras coisas, experimentar um olhar por outros olhos, um sabor por outra boca, um odor por outras narinas, ou seja, perceber o mundo por outra realidade; assim, temos contato com outras possibilidades de mundo. O crítico Michael Hamburguer, em A verdade da poesia, afirma que “a comunicação é uma função intrínseca à poesia, mesmo quando o poeta está consciente de não querer comunicar nada em particular, quando ele escreve para os mortos ou para ninguém. Um poema pode ser um monólogo; mas é um monólogo em voz alta”.
O que comunica Adams Alpes, em uma elegante coloquialidade, é uma poesia que se apresenta crua, mais do que nua, se mostra esfacelada; não é à toa que o nome desta primeira obra do poeta é Dilacerações. O leitor é levado por seu monólogo à verdadeira poesia contemporânea: eclética e inovadora na forma e no conteúdo. É perceptível, até ao leitor mais desatento, que seus poemas saíram do fundo de uma alma atormentada, como em “Psicologia Barata”, “Telhados” e “Atalhos”, e também de uma alma chocada com o mundo ou o tempo que não são mais o de outrora, como em “A Reflexão”, “04h59 AM” e ainda “Minhas Águas”. Mas, sobretudo, cada poema é sobre experiências e percepções de um eu-poético aturdido.
Os poemas de Adams Alpes apresentam um apurado arrojo estético. Estrofes não lineares ampliam significativamente cada poema e ganham diversas interpretações.
Em Dilacerações, o poeta Adams Alpes exibe uma poesia lírica e subjetiva da experiência cotidiana, com referências e citações a alguns poetas do cânone modernista brasileiro, como Drummond e Bandeira, em “Poema de nenhuma face”, “Confidência de um interiorano” e “Minha Teresa”; Oswald de Andrade, na paródia “Canção do exílio otimista”; Fernando Pessoa, mais precisamente Alberto Caeiro, em “Guardador de friezas”; e Vinicius de Moraes, em “Poema preferido refeito”.
Diferentemente de muitos críticos e alguns poetas, sempre acreditei que a poesia tem caráter edificante, mas, principalmente, questionador, pois ao nos comunicar esse monólogo sobre seu mundo, nessa belíssima e necessária obra, Adams Alpes nos faz experimentar a possibilidade de que nossa alma também pertence a um mundo de Dilacerações.





Um tempo que escorre aos olhos


            Em À medida dos Tempos, livro de estréia de Clebber Bianchi, percebe-se que no decorrer da obra o poeta amadurece seu canto, amplia suas impressões e expressões, suas visões e percepções de um tempo impossível de se aprisionar, mesmo depois de capturado pelo retrato fotográfico, restando ao olhar lírico apenas a nostalgia de um tempo tardio, mesmo que recente: 
Do peito,
escorre a chama suja dos tempos.
O olhar é simples, singelo,
apenas os tempos são capazes de testemunhá-lo.
O sorriso amarelou no retrato
e a fala muda enalteceu a lembrança.
Somente o sonho sobreviveu.
E a saudade vive nas tardes,
sob as folhas das mangueiras,
a cada lágrima que cai.

            Clebber nos dá mosta do labor poético que preza a fenomenologia do olhar, olhar este que se volta para as coisas sem importância, coisas à toa e, por isso mesmo, são de grande valia e merecem ser recordadas:

Haverá um tempo
em que o passado estará exposto
no reflexo das cores orvalhadas
das flores do jardim da janela dos fundos.
As goteiras farão as rimas dos versos
que contarão a história.
O silêncio que havia na casa grande
havia entre os odores do curral.
O galo que há pouco cantou
propiciou reminiscências,
que os roncos dos motores e buzinas,
além do apitar cotidiano da fábrica, apagaram.
RETRATOS

            A observação subjetiva das coisas simples, singelas, ganha um forte aliado, sua sintaxe também simples, sem afetações linguísticas de um discurso meramente formalista, que pouco comunica. O discurso poético de Clebber comunica bastante, para isso o campo léxico de À medida dos tempos é cotidiano, comum, no entanto é nessa simplicidade de dizer que é dito muito sobre a solidão, os sonhos infantis e até sobre o fato de se perder as palavras, restando apenas a contemplação sensorial do momento: 
Daqui de cima tudo é solitário.

Viver acima
é encontrar-se surdamente
falando para si mesmo.
Esta é a minha casa da árvore (sonho de criança)
financiada em duzentos e quarenta meses, além de alienada.

Quando enlouqueço e grito lá para baixo,
somente as buzinas respondem.
Em seguida, as palavras não me vêm.
Apenas o pio da andorinha,
um pio, um só.
Apenas uma andorinha,
uma andorinha apenas.
UMA ANDORINHA


           
Cleber vale-se de alguns recursos poéticos, apesar de sua linguagem acessível, como por exemplo, paradoxos e antíteses:
O tempo é permissivo
aos contentamentos descontentes.
Vejo que tudo acontece ao mesmo tempo agora
no cenário dos dias na cidade...
PESARES DO TEMPO

Hoje, o tempo me veio solteiro,
em uma noite daquelas em que a melhor companhia era a
 
solidão.
EU INTRA

além disso, em alguns poemas vê-se um jogo com os diferentes valores semânticos de uma mesma palavra, como em MÁSCARA:

Um ser sem sentir-se
um sentir-se sem ser.
 
porém é nas belíssimas imagens poéticas que Clebber Bianchi se mostra mais criativo:
Enquanto os sapos coaxam de sede,
O sol atravessa a pele da terra,
e meus ombros são minha camada de ozônio.
DESALINHO

Cansei de respirar uma felicidade esbaforida,
cansada de se engasgar no soluço sórdido,
 
numa exatidão sem nexo e triste de alma.
(...)
Bastou-me um santo
e ajoelhei-me sobre as cinzas carbonizadas do meu consciente.
DILATEM, PUPILAS!


            O poeta também se utiliza de alguns recursos sonoros que fazem com que os seus poemas ganhem em musicalidade e ecoem em nossos ouvidos. Um desses recursos, é o eco fonético, ou seja, aproximação de palavras semelhantes sonoramente:

Eu era um descaso do acaso,
angariado na contramão de uma grande avenida
Os brilhos dos olhos lagrimantes de saudade
de um tempo escorrido nos relógios
refletiam a esperança do passado,
apagada na realidade de um presente sério.
TEMPO DE REZA

Outro recurso utilizado pelo poeta é a onomatopéia: 
O relógio tinha que tá, tinha que tá
mas não tá.
 
(esta foi a única coisa que o tempo parou!)
MANTO NEGRO


            Clebber mostra em seus versos, não raro, a influência de Tonho França, e faz uma homenagem à altura do poeta de Guaratinguetá em CHARUTO CUBANO:

Uma lágrima seca escorreu-me de canto
e o canto do pintassilgo emudeceu na gaiola.
Minha cachaça perdeu o gosto quente,
exposta ao sol dos dias.
Mesmo uma pimenta aberta no prato
caçoava minha coragem.
Senti desconforto
e, sob meus pés,
o vácuo das manhãs sem sal provocava saudades.
É contínua a direção dos ventos,
segundo os sonhos,
seguindo sempre somente e só...

Os apoios que me sustentam
são espinhos tristes, sanções expressionistas,
cenários de Van Gogh.
Meu peito dilatado
ressalva as atitudes corriqueiras nas janelas
temperadas de línguas.

E sobre a rede ...
... e sobre a rede,
somente um legítimo charuto cubano
fazia-me companhia,
e entre um trago e outro
trago saudades.
Ao fundo,
solos de blues...
Solos de blues,
à tarde.

As acácias choravam suas perdas,
e as folhas caíam como eu,
solitariamente...

            Outro destaque do livro é OLHOS FECHADOS, poema com uma vertente ecológica e, dado aos problemas ambientais, quem sabe, profético:

A culpa é nossa!
Uma culpa com a imensidão do verso,
 
do céu-fumaça, estradas-pet, sertão-papel. Culpa tamanha!
O sonho é esperança contida no escorrer das águas nas sarje¬tas,
nas mãos atadas dos pobres de espírito,
no papel de bala que perfurou o vento
e não pesou sobre a mente poluída.

É o início do fim. (...)

            Le Goff em História e Memória diz:
“a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia”. 

           
Com base nessa afirmação, só resta encerrar a resenha com os belíssimos versos de SEXO DOS TEMPOS, sem antes render as devidas congratulações ao poeta que surge à tempo: 

Sou atemporal.
Minhas memórias não morrerão minhas




Um trago sozinho à tarde


Ernest Fischer, em A necessidade da arte, afirma:
                         Em todo poeta existe certa nostalgia de uma linguagem “mágica”, original.


                   Em O Bebedor de Auroras, mais novo trabalho do premiadíssimo poeta Tonho França nos brinda com magia, lírica íntima e sintaxe peculiar para resgatar do mundo contemporâneo, a cada dia repleto de surpresas, armadilhas e contradições, a humanidade perdida.
             A experiência individual do eu-poético, traz ao livro um tom de saudade e de desencanto, talvez contaminado pelo sentimento de desencaixe, como se pode notar em: 

            aprendi a ver através das margaridas, mas não entendo mais o
                                                                       [olhar dos homens
                                                  (...)
                                                                                  (Tardes Artificiais)
ou:
                                               A toda hora
                                             A todo momento
                                        Estou fora ou dentro?
                                                                                  (Muros)
             A pena de Tonho corre sobre o fazer poético, em inúmeros poemas se encontram as palavras: versos, poesia e poeta, isto em consequência a reclusão no presente de eu-poético fragilizado pelas incertezas do futuro e as recordações do passado: 
           
             Meus olhos, embora cansados,
            Pressentem o que não podem ver
            Aprenderam com o meu silêncio
            – rituais e rotinas de solidão –
            Meus instintos guardam a memória dos amores
            E de tudo o que me é caro e que meu coração...
            Já não suportaria.

            E de nada me adiantam, agora, lembranças,
            Penitências, alegrias ou arrependimentos
            ­Estou recluso nos versos –
            E nas minhas dores, culpas
            Nos enfrentamentos em calmos e intermináveis silêncios
            Abertos, vulneráveis, extremamente íntimos
            E despidos de profecias, santos e defesas,

            Num encontro definitivo, conclusivo, coeso

            Do qual nem poeta, nem poesia, saem ilesos.
(Autorretrato (Diálogo do último dia))
                   
            O sotaque poético de Tonho França permanece intacto, maneira singular de construção semântica,  que aproveita fragmentos de versos anteriores para dar aos posteriores outras significações:

            As ladeiras de pedra
            Os homens a seguir o destino em procissão
            As ladeiras de pedra e os homens a segui
            As ladeiras de pedra tentam a remissão:
            Os homens de pedra a seguir vão,
            homens de pedra a seguir
            os homens, em vão.
                                               (...)
                                                                                  (Procissão)
               Na construção sintática, menos recorrente nesta obra é verdade, Tonho França também é mestre, trabalha duas orações coordenadas, porém com o segundo elemento do paralelismo inusitado:
          
              Meus olhos guardam o segredo da morte
            Suas mãos enrijecidas em pétalas de mármore-rosa
            Colhiam maças e notas musicais.
                                                                                  (Canto III)
                  Mares... destoa do resto do livro, o uso constante da mesma rima dá ao poema um ritmo arcaico, lembrando muito a poesia do século XIII e XIX:
            Os barcos deixam o cais,
            Aventuram-se e deixam o cais,
            Nas ondas inseguras, deixam o cais,
            Levando as desventuras, deixam o cais,
            Nas noites tão escuras, deixam o cais,
            Deslizam entre espumas e corais,
                                               (...)


                   Ainda na linguagem que o poeta utiliza para suas auroras o destaque fica por conta de:



Metrópole

Pivete no semáforo
(vida?)
Vende balas
(perdidas)
                  o uso dos parênteses dá ao poema outras possibilidades de interpretação, pode-se ler só os termos que estão fora deles, apenas os que estão dentro, ou ainda embaralhando-os.
                 Em Vida vista pela janela (cenas de um tempo sem sentido), um dos melhores poemas do livro, Tonho nos ensina:
            É preciso nos lavar de nós mesmos  (..)
                   Em uma sociedade que é regida pelo olhar mercadológico, o olhar sensorial do eu-poético recai sobre os homens desumanizados, então resta, apenas, concordar com as palavras do poeta:
            Já aprendi a sobreviver nas esquinas definitivas
            E sinto como é pesada a franqueza
            Escrevo abaixo da “linha da pobreza”
            Dentro dos olhos e com muita dor
            Mas não me iludo, não me engano
            Meus versos são pelos seres humanos
            A poesia é para sermos humanos
                                               (...)
                                                                       (Dia a dia)

             A voz auscultada das páginas traz a entonação do entardecer, apesar do título constar como auroras, a palavra tarde é recorrente em muitos de seus versos, assim como ecos de um homem, em uma metrópole, solitário à espera de alguém para, quem sabe, um trago de poesia.
                O Bebedor de Auroras é um bálsamo contra a banalização do mundo contemporâneo que está cada vez mais e mais desumano e alienante. 




Um acontecimentos de vivências


            Nas páginas de seu primeiro livro Acontecências, Jurandir Rodrigues nos apresenta flagrantes líricos de acontecimentos e vivências, a voz peculiar do poeta conduz Noite a fora para compartilhar sua realidade consciente, transformada por meio de uma linguagem acessível, porém imaginativa.
            O leitor compartilha sua melancolia, como em Blue, suas tormentas de Abandono, suas vitórias emMeu tempo, seu desejo de Ardência e sua saudade em Cada pedacinho.
            Jurandir aproveita as páginas para render homenagens aos seus ídolos como Drummond “Se o vinho e a saudade da lua não deixassem a gente/ comovido como o diabo”, também em “ela surge vagarosamente/ de tempos em tempos/ eu espero/ ela brotaria no asfalto”, Pessoa “Gosto de pessoas /Pessoa/ Caeiro/ Álvaro/ Soares/ Reis”, ou “Nasceu homem, morreu menino/Cavaleiro do íntimo apocalipse, Fernando Sabino”, mas é em Mito e Antologia poética que Rodrigues escancara suas preferências literárias, neste último ele chega a incluir até seus letristas preferidos.
            A música é terreno conhecido do poeta como se percebe em Testamento “Meus livros, meus discos”, Para mim “Tudo é Nelson Cavaquinho”, além das referências e alusões a letras musicais, os versos do poeta se mostram melódicos e rítmicos “Hoje me refaço, me desfaço, me traço./ Se quisesse colar, desamassar, ensacar; teria perdido tempo./ Hoje já me olho, recolho, embrulho e me entrego quase/ inteiro. /Se quisesse te amar, teria que esperar./ Amor
            Além das referências e, principalmente, homenagens a quem foi caro à formação lírica e musical do poeta, Acontecência apresenta homenagens às pessoas que foram importantes para a sua formação humana, o pai ganha de presente três poemas RaízesMeu pai e Queda.
            Jurandir Rodrigues começa bem sua caminhada poética, subjetividade, personalidade, sensibilidade, como também harmonia entre a força das palavras e das idéias fazem de Acontecências um acontecimento.




Ecos de um gemido longínquo


Aristóteles em Arte poética afirma que a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular. É unindo história e poesia, misturando o universal com o particular que Eryck Magalhães ecoa seu grito a favor dos índios e dos negros, dos vencidos e excluídos e de todos os marginalizados.
Eryck vale-se do poema curto, da mensagem instantânea, exata, lembrando as blagues de Oswald, o qual nos vem à cabeça quando lemos o belo poema Antropofagia, e outros que apresentam uma nova realidade ao recontar o que já é conhecido:

O negro de tão negro é invisível
Invisível aos olhos dos que vêem
Aos cegos os negros são mais lúcidos
Pois negro é tudo o que vêem.
A cegueira
Ao utilizar todo espaço da página para unir conteúdo e forma, o poeta mostra a influência do concretistimo e, principalmente, do neo-concretismo, como em Disparidade, Ex-escravos, Incontestável.
Eryck, com seus Ecos, mostra-se sabedor da força das palavras e da poesia como contribuição para uma sociedade mais justa. Também, corajoso, por tocar em temas, como a herança da escravidão e da abolição, o discurso católico-cristão e como seria de se esperar: o racismo, que até hoje é velado em uma sociedade minoritariamente branca. 
Ao virar sua voz para os renegados, conclama a harmonia:

Porque sem o branco do papel
e o negro da tinta
não haveria este poema.
Belíssima Justificativa...








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